A Ironia de Fallout

Esse texto não é uma crítica à série ou algo mais profundo, apenas uma reflexão.
Eu gosto muito de Fallout!
Cheguei tarde na franquia, jogando o 3 no PS3 (dias de luta) quando o PS4 já havia sido lançado (e eu já estava com um em mãos). Depois joguei o New Vegas, no Xbox 360.
Embora ainda não tenha jogado o 4, farei em algum momento.
O estilo Americana e o clima de anos 50 combinado com o deserto radioativo e o retrofuturismo tem um charme todo especial, o sistema de side quests é excelente (bem melhor que as quests principais).

Mesmo com os gráficos datados e toneladas de bugs, é uma franquia que tem um lugar cativo no meu coração.
Porém, ao pensar muito, algo me incomoda: a ironia do jogo se passar nos EUA.
Só um país, até hoje, recebeu ataques de bombas atômicas: o Japão. E quem perpetrou tal ataque foi um país: os EUA.
Portanto, o fato do jogo se passar em uma realidade onde os EUA foram afetados e precisam lidar com os efeitos da explosão atômica, acaba por ter um certo gosto amargo pelo fator histórico.

As motivações para os ataques em Hiroshima e Nagasaki são discutíveis e polêmicas.
Por um lado, o Japão era o único país do Eixo que permanecia na guerra, recusando a entregar-se; por outro lado, as bombas atômicas foram engenhadas para atacar a Alemanha (nesta altura, já rendida) e o impacto causado por ambas foi devastador, além de atacar diretamente cidades civis.
Veja bem, não estou aqui defendendo o Japão, que já teve sua cota de culpa na Segunda Guerra Mundial, com as invasões na China e Coreia, além de outras regiões.
Eventos como o Estupro de Nanjing e as “mulheres de conforto”, tanto da China quanto da Coreia (além de outros territórios ocupados), bem como a Unidade 731, são prova do terror que o Japão empreendeu na Ásia durante a guerra.

Todavia, o que as bombas atômicas causaram foi um marco de destruição na História humana.
Dezenas de milhares de mortos instantaneamente, outros milhares contaminados com radioatividade, que viriam a desenvolver cânceres e tumores ao longo dos anos, sem contar o estrago causado à flora e fauna locais, transformou-se em uma mancha da sociedade contemporânea.
O próprio Oppenheimer, criador da bomba, ao ver o teste bem sucedido, arrependeu-se instantaneamente, percebendo o que havia acabado de criar.

Vale lembrar que esta não foi a primeira derrota sofrida pelo Japão contra os EUA.
Em 1853, o almirante Matthew Perry (não, não o ator de Friends) forçou a abertura dos portos japoneses para o Ocidente, sob a ameaça de bombardeio.
Talvez, e somente talvez, este tenha sido um dos motivos do ataque a Pearl Harbor, uma provocação dos japoneses contra os americanos que custaria a extinção de milhares de vidas.

Apesar de tudo isso, o Japão mudou sua mente militar e tornou-se um aliado dos EUA e de parte do Ocidente, mostrando uma capacidade de perdão que outras nações jamais teriam.
A era atômica instaurou um novo terror entre os seres humanos.
Isto pode se ver refletido em Godzilla e dezenas de outros filmes sobre criaturas surgidas da radiação e dos efeitos de ataques nucleares.

Entre tais obras, inclui-se Fallout, um jogo americano onde a terra do Tio Sam é o alvo de bombas atômicas.
Afinal de contas, a história é escrita pelos vencedores…

