A Ironia de Fallout

A Ironia de Fallout

Esse texto não é uma crítica à série ou algo mais profundo, apenas uma reflexão.

Eu gosto muito de Fallout!
Cheguei tarde na franquia, jogando o 3 no PS3 (dias de luta) quando o PS4 já havia sido lançado (e eu já estava com um em mãos). Depois joguei o New Vegas, no Xbox 360.

Embora ainda não tenha jogado o 4, farei em algum momento.
O estilo Americana e o clima de anos 50 combinado com o deserto radioativo e o retrofuturismo tem um charme todo especial, o sistema de side quests é excelente (bem melhor que as quests principais).

Esse jogo é ótimo, mas o desempenho no PS3 é uma das piores coisas que vi na vida

Mesmo com os gráficos datados e toneladas de bugs, é uma franquia que tem um lugar cativo no meu coração.
Porém, ao pensar muito, algo me incomoda: a ironia do jogo se passar nos EUA.

Só um país, até hoje, recebeu ataques de bombas atômicas: o Japão. E quem perpetrou tal ataque foi um país: os EUA.
Portanto, o fato do jogo se passar em uma realidade onde os EUA foram afetados e precisam lidar com os efeitos da explosão atômica, acaba por ter um certo gosto amargo pelo fator histórico.

O piloto (Coronel) Paul Tibbets e o B-29 Enola Gay (em homenagem à mãe), avião bombardeiro responsável pelo lançamento de Little Boy, a bomba atômica que devastou Hiroshima em 6 de agosto de 1945

As motivações para os ataques em Hiroshima e Nagasaki são discutíveis e polêmicas.
Por um lado, o Japão era o único país do Eixo que permanecia na guerra, recusando a entregar-se; por outro lado, as bombas atômicas foram engenhadas para atacar a Alemanha (nesta altura, já rendida) e o impacto causado por ambas foi devastador, além de atacar diretamente cidades civis. 

Veja bem, não estou aqui defendendo o Japão, que já teve sua cota de culpa na Segunda Guerra Mundial, com as invasões na China e Coreia, além de outras regiões.
Eventos como o Estupro de Nanjing e as “mulheres de conforto”, tanto da China quanto da Coreia (além de outros territórios ocupados), bem como a Unidade 731, são prova do terror que o Japão empreendeu na Ásia durante a guerra.

Membros da Unidade 731 pousam para foto: a unidade secreta responsável por experimentos humanos letais para a criação de armas biológicas e químicas, situada na Manchúria, durante a ocupação japonesa na Segunda Guerra

Todavia, o que as bombas atômicas causaram foi um marco de destruição na História humana.
Dezenas de milhares de mortos instantaneamente, outros milhares contaminados com radioatividade, que viriam a desenvolver cânceres e tumores ao longo dos anos, sem contar o estrago causado à flora e fauna locais, transformou-se em uma mancha da sociedade contemporânea.

O próprio Oppenheimer, criador da bomba, ao ver o teste bem sucedido, arrependeu-se instantaneamente, percebendo o que havia acabado de criar.

Robert Oppenheimer, o criador da bomba atômica, temeu sua própria criação

Vale lembrar que esta não foi a primeira derrota sofrida pelo Japão contra os EUA.
Em 1853, o almirante Matthew Perry (não, não o ator de Friends) forçou a abertura dos portos japoneses para o Ocidente, sob a ameaça de bombardeio.

Talvez, e somente talvez, este tenha sido um dos motivos do ataque a Pearl Harbor, uma provocação dos japoneses contra os americanos que custaria a extinção de milhares de vidas.

O ataque japonês à base americana de Pearl Harbor, no Havaí, em 7 de dezembro de 1941, forçou a entrada dos EUA na Segunda Guerra

Apesar de tudo isso, o Japão mudou sua mente militar e tornou-se um aliado dos EUA e de parte do Ocidente, mostrando uma capacidade de perdão que outras nações jamais teriam.

A era atômica instaurou um novo terror entre os seres humanos.
Isto pode se ver refletido em Godzilla e dezenas de outros filmes sobre criaturas surgidas da radiação e dos efeitos de ataques nucleares.

Godzilla, o monstro acordado e transformado com a radiação

Entre tais obras, inclui-se Fallout, um jogo americano onde a terra do Tio Sam é o alvo de bombas atômicas.
Afinal de contas, a história é escrita pelos vencedores…

Os americanos presenciam o bombardeio nuclear em Fallout 4

thiagomusashi

Fã do underground e do bizarro, Thiago Musashi trilha seu caminho através das pérolas escondidas no submundo trash.

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