* Importante ressaltar que o post possui caráter teórico/especulativo, não pretendendo ofender as crenças pessoais de nenhum leitor.

Divindades são assunto comum em jogos de videogame.
Seja pelo culto aos mesmos ou por sua oposição ao protagonista/grupo, até mesmo seu uso como ferramenta de combate, deidades aparecem com frequência nos títulos, em especial nos RPG’s.

Estes seres costumam ser fictícios, sem se basear em nenhuma religião real, salvo exceções como as séries Shin Megami Tensei e Persona.
Ambas as franquias utilizam deuses de religiões passadas e presentes, além de mitologias. Por tratar-se de jogos japoneses, há uma maior liberdade para o uso de seres divinos, ainda que certas figuras sejam evitadas e/ou renomadas, para evitar polêmicas.

A Virgem Maria em Shin Megami Tensei V: Vengeance

Pois o mundo é dominado por três religiões monoteístas bem conservadoras quanto às suas figuras principais: YHWH (Javé) para o Judaísmo, Jeová (ou também Javé, já que eu teoria são ambos o mesmo Ser) para o Cristianismo e Alá para o Islamismo.

As três religiões abraâmicas são monoteístas e cultuam o mesmo (???) Deus

Dentre estas três, como todos sabemos, o Cristianismo impera sobre grande parte do mundo (em especial no Ocidente), ainda que dividido em centenas de ramificações.
E aqui os jogos tendem a não retratar tais deidades, dado que o monoteísmo admite apenas a existência de um Deus, e as três religiões acabem por gerar conflitos entre si devido à identidade do Deus verdadeiro. Porém, o Cristianismo possui uma curiosa característica em sua versão de monoteísmo.

A Santíssima Trindade compreende Deus, Jesus Cristo e o Espírito Santo: uma trindade una, ou seja, os três estão contidos em apenas Um.
Aqui cabe uma ressalva sobre a interpretação de quem seria Jesus Cristo, a depender da ramificação religiosa: Jesus é o Deus encarnado (um avatar representando Deus em forma humana) ou o filho de Deus e, portanto, um ser derivado do Primevo.
Independentemente de qual versão aceita, Pai, Filho e Espírito Santo são apenas Um, e passíveis de adoração única.

Jesus Cristo, Espírito Santo e Deus

Mas e Maria?
Nossa Senhora, progenitora de Jesus, é imaculada pois concebeu sem contato com nenhum homem, e sim diretamente do Espírito Santo. Conta-se que Maria teria sido já concebida por pais velhos e estéreis (ok, apenas pela mãe), sendo ela também um Milagre, e mantida em um templo, protegida do contato com meninos e homens, até a idade de sua primeira menstruação (Menarca), quando um protetor foi sorteado para levá-la do templo, cabendo tal tarefa a José.

A partir deste momento, Maria passa a ser considerada Santa e, portanto, passível de adoração/veneração.
Mas espere aí: o monoteísmo não pressupõe adoração a apenas um Deus? Qualquer ser adorado além de Deus não seria idolatria?
Bem, é a mãe de Jesus, então vamos dar um desconto aos cristãos. 
Mas só nesse caso, hein???

Porém, durante a Idade Média, mosteiros, abadias e conventos viviam de doações e muitas vezes aqueles mais afastados das regiões principais recebiam poucos peregrinos, levando à pobreza além do voto.
Como então atrair mais devotos e, consequentemente, arrecadar dinheiro para os cofres?
Isso mesmo: relíquias!

Ossos estão entre as principais relíquias dos santos católicos

É na Idade Média que os santos começam a se multiplicar, com diferentes aparições e milagres em muitos locais.
Um monastério está fora da rota de peregrinações? E se este local possuísse o osso de um santo ou santa?
Uma abadia pode ter um chumaço de cabelo ou mesmo o dente de outro santo.

Logo, uma enxurrada de relíquias inundou os templos europeus, levando devotos a visitar e doar grandes quantias de dinheiro para os locais, tanto pela adoração do venerável em questão, quanto pelo pedido da cura de uma doença ou algum outro problema grave.

O Papa Alexandre II (Anselmo da Baggio) fez a primeira regulamentação sobre relíquias

Diante do grande surgimento de santos e relíquias, o Papa Alexandre II (século XII) centralizou a decisão sobre a beatificação de novos prospectos, sendo a beatificação o processo inicial de comprovação dos atos heróicos do indivíduo e a canonização o passo final para a caracterização de um novo santo.

Lembra que falamos sobre o monoteísmo permitir apenas adoração a um Deus?
Bem, o Catolicismo, vertente principal do Cristianismo, possui milhares de santos e beatos, incluindo aí diferentes personificações de Nossa Senhora (Maria) e de Jesus (como o Menino Jesus de Praga), além de outros tantos santos e anjos de diferentes hierarquias.

A Virgem Maria possui múltiplas aparições e variantes, correspondendo ao povo local

Romarias, procissões e atos de fé exaltam estes santos, que em sua maioria foram seres humanos comuns, elevados à categoria de veneráveis. Existe, em tese, uma diferença entre veneração e adoração, já que a segunda seria apenas para Deus.
Na prática, porém, as pessoas adoram os santos, assim como adoram a Deus.

Dessa forma, os santos católicos adquirem status semelhante a deuses menores (de um panteão politeísta) ou mesmo de semideuses.
E assim o sincretismo religioso permitiu que deidades/entidades de outras religiões fossem adoradas como santos católicos. Um exemplo claro disto se dá nas religiões de matriz africana onde, no Brasil, Iemanjá (a orixá Rainha do Mar) foi associada à Nossa Senhora de Navegantes, uma variante da Virgem Maria que protege os marinheiros, Ogum é São Jorge, etc…

Iemanjá, a orixá contraparte da Virgem Maria através do sincretismo religioso, não apenas ficou mais “comportada” como foi enbranquecida

A conversão forçada para outras religiões não apaga a crença original, especialmente quando ela pode ser “disfarçada” sob o manto dos santos, da mesma forma que países comunistas que proibiram crenças religiosas apenas fizeram com que os crentes escondessem sua adoração.

Então os santos e anjos católicos, ainda que não sejam considerados deuses/divindades, possuem papel semelhante na crença popular, como “ajudantes de Deus”, responsáveis por curas e outros milagres; você não ora para Thor ou Zeus, se tiver medo de tempestades e trovões, mas para Santa Bárbara ou São Pedro.

São Carlo Acutis, o santo millennial; se você reclama do site ser mais favorável ao PlayStation, reclame com o santo…

Recentemente, Carlo Acutis, desculpe, São Carlo Acutis, foi canonizado como primeiro santo millennial, tendo como relíquias o próprio corpo do garoto, preservado trajando roupas da Nike, em Assis, Itália, além de um casaco e, veja você, um PlayStation, embora este ainda esteja sob discussão.
Se a relíquia for confirmada, São Carlo Acutis poderia ser também o santo dos saves perdidos?

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