Adivinha De Quem É A Culpa


* O texto é uma visão sobre o discurso conservador e independe de visões políticas, focado apenas na problematização de mídias.


Quando parece que a humanidade está evoluindo em algum tema, sempre retornamos à estaca zero.
Velhos discursos e preconceitos voltam, procurando quem culpar e, claro, indo onde é mais fácil bater.

Recentemente, casos de ataques em escolas no Brasil começaram a pipocar ao longo do país.
E adivinha de quem é a culpa? Games, é claro!
Instrumentos de doutrinação que ensinam a matar, segundo o atual presidente, Lula, ironicamente parafraseando um discurso conservador velho, que tanto ouvimos no passado.

Esse “medo” é antigo e já escolheu outros alvos ao longo da História.
Livros, filmes, RPGs, música: é sempre mais fácil atribuir a culpa da violência à uma obra ou seu conjunto, apontando dedos para um bode expiatório, quando os problemas estão muito mais enraizados na própria humanidade.

Os judeus já sofriam perseguições desde a Idade Média, mas ela foi exacerbada no Holocausto


Antes ainda, o medo do desconhecido era motivo de perseguição e ódio contra diferentes grupos culturais.
A Santa Inquisição, movimento radical cristão ocorrido na Europa, durante a Idade Média, torturou e executou milhares alegando bruxaria, satanismo e rituais pagãos.
Aceite o amor de Cristo ou morra queimado na fogueira. Sabe misturar ervas para um chá que pode curar pequenos males e desconfortos? Bruxaria passível de morte!

A Santa Inquisição matou milhares em nome da “purificação”


Mais tarde, entre 1693 e 1694, os famosos julgamentos das Bruxas de Salém, nos EUA coloniais, levaram à morte 19 pessoas dentre as 200 acusadas de bruxaria.
Um caso de histeria coletiva marcante na história americana, onde uma série de acusações de bruxaria partindo de adolescentes alastrou-se pela Nova Inglaterra colonial, espalhando medo e paranoia.

O episódio na América Colonial de Salém é um dos mais famosos casos de histeria coletiva


Já na década de 80, o famoso Pânico Satânico (Satanic Panic), tomou conta dos EUA em uma série de alegações de cultos satânicos.
Considerado em grande parte o combustível dessa onda de histeria, o livro Michelle Remembers, escrito pelo psiquiatra canadense Lawrence Pazder e sua paciente Michelle Smith (mais tarde sua esposa), aborda os supostos abusos sexuais que Michelle teria sofrido nas mãos de grupos satanistas, obtidos através de relatos da paciente em sessões de hipnose.
Best seller na década de 80, o título elevou Pazder ao status de especialista em casos de SRA (Satanic Ritual Abuse), tendo sido consultor em mais de 1000 casos de SRA.

O livro que espalhou pânico por uma nação
Michelle Smith e Lawrence Pazder, os autores de Michelle Remembers


Michelle Remembers instaurou uma onda de teorias da conspiração nos EUA, embora mais tarde tenha sido descreditado dada a falta de evidências em várias alegações dos autores e o método de terapia de memória recuperada.
Até que fosse descreditado, entretanto, o livro já havia causado profundo impacto na cultura americana.
O RPG de mesa Dungeons & Dragons e o Heavy Metal foram considerados métodos para aliciar jovens aos cultos de origem satânica que, para surpresa geral, nunca foram encontrados.

Eddie Munson, da 4ª temporada de Stranger Things, foi inspirado em Damien Echols, fã de Dungeons & Dragon e Heavy Metal, acusado injustamente por uma onda de assassinatos em West Memphis, no Tennessee, tendo sido preso por 18 anos, escapando da pena de morte após a reabertura do caso


E assim chegamos aos ataques em escolas, tão comuns nos EUA e difundindo-se atualmente pelo Brasil.
Embora haja diversos fatores influentes nos casos de ataques de alunos e ex-alunos, grande parte deles deve-se ao bullying sofrido pelos perpetradores, além de problemas psicológicos e/ou estruturas familiares frágeis.

A pressão social e o bullying acabam levando crianças aos extremos


Este tipo de problema obviamente é muito mais complexo, envolvendo negligência e/ou desconhecimento de casos de bullying nas escolas, resultando em alunos que se tornam fechados demais para o mundo e acham em ideologias extremistas na internet uma “rede de apoio”.
Agora sabendo seu lugar no mundo, estes jovens entregam-se às fantasias de violência e acabam por pô-las em prática.

Na campanha política tudo é festa, mas depois da eleição… tudo muda de discurso


É mais fácil apontar um video game do que realmente tentar entender a origem de um problema.
Infelizmente esse discurso já é velho conhecido dos jogadores e ainda será usado inúmeras vezes.
Independente de qual espectro político, o populismo sempre dará margem para a ignorância tomar conta de discursos inflamados e tapar o sol com a peneira…

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