
* Esta análise foi feita com o código cedido pela Focus Entertainment (versão PS5)
Distribuidora: Focus Entertainment
Produtora: The Parasight S.A.
Plataforma: PS5 / Xbox Series / PC
Mídia: Digital
Ano de Lançamento: 2024


Blacktail é um jogo FPS de mundo aberto, onde você controla Yaga, uma menina em busca da irmã, Zora, enquanto é atormentada pela ameaça da bruxa Baba.
BABA YAGA
Entre as famosas bruxas do folclore europeu, nenhuma se destaca mais do que a temida Baba Yaga, pertencente às lendas eslavas. Este nome, inclusive, é a versão russa da criatura.


Assim como outras lendas que permeiam vários povos próximos, Baba Yaga representa uma série de bruxas com pequenas variações, a depender do local, mas a versão mais comum entre os eslavos é a de uma idosa de aspecto asqueroso, que voa em um pilão/moedor (ou uma vassoura) e vive em uma cabana com pernas de galinha. O pilão pode também ser usado como arma e a vassoura serve para limpar os rastros de sua passagem.


Baba vive na floresta e pode sequestrar crianças (ou mesmo adultos) para se alimentar delas com seus “dentes de ferro”, porém em outras versões ela protege a floresta, caçando apenas aqueles que desrespeitam a natureza e as pessoas de coração impuro. Em algumas lendas, existem três Baba Yagas irmãs.

GÊMEAS
Yaga e Zora são duas irmãs órfãs, sendo Yaga a que utiliza uma máscara para esconder seu rosto marcado e é chamada no vilarejo de “olho da bruxa”.
Zora sai do vilarejo após o toque de recolher, seguida por Yaga, mas elas se perdem no caminho e Yaga lembra do conselho da irmã, de sempre procurar o Carvalho Vermelho.


Não encontrando a gêmea, Yaga passa a ouvir uma Voz em sua cabeça, que reclama de sua submissão em relação à irmã. A menina sente um chamado e, inconscientemente, vai em direção à Cabana, uma construção invisível no meio de um pântano, cercada de ossos.


Aos poucos descobrimos sobre o passado de Yaga, Zora e as outras crianças do vilarejo. Por sempre usar uma máscara, a protagonista era constantemente hostilizada pelas outras crianças, especialmente Slavitza e Volko, enquanto Dragoy costumava ser mais gentil com ela.
BRUXA SOBREVIVENTE
Yaga é uma arqueira e, como tal, pode fabricar suas próprias flechas, mas como “aprendiz” de feiticeira, pode também imbuí-las de poderes: fogo/explosiva, cristal (que derrete o gelo) e mel (desacelera e pode bloquear saídas de colmeias).


Outros itens podem ser criados, conforme ela resgata páginas de receitas para o caldeirão da cabana, como poção de cura, antídoto para o veneno de aranhas e vassouras (que podem ser criadas e utilizadas com Triângulo, atraindo inimigos próximos).



Os recursos necessários para a criação de itens variam entre gravetos, penas, olhos (de aranha), favos de mel e cristais, entre outros.
É também possível caçar servos para se alimentar, embora isto afete a moralidade da personagem de forma negativa. Uma vez caçada, a carne deve ser levada à uma fogueira, gerando alguns bônus de velocidade, vida, etc.



O sistema de moral determina sua relação com os Cogumelos, ao passo que a protagonista executa missões para duas facções rivais. Decisões baseadas na escolha ao final de uma missão e libertar (de plantas carnívoras) ou matar pássaros estão entre as ações que modificam a forma como Yaga é vista pelos outros personagens. Se você decidir matar pássaros para pegar suas penas com mais facilidade, por exemplo, você obterá mais recursos para fabricação, mas terá uma moralidade mais voltada ao maligno.



Entre os poderes que Yaga obtém estão o Dash (R1), que serve tanto para fugas quanto esmagar Vodniks, espíritos das águas, aqui representados como seres de gosma com rostos disformes. O outro poder importante é o Hocus (R3), que cria uma barreira de proteção que pode parar o tempo e atacar, roubando a vida dos inimigos (moralidade ruim) ou apenas drenar sua vida (moralidade boa).
POR DENTRO DO BOSQUE
Conhecer os arredores é essencial para se locomover em Blacktail.
Isso pode não parecer óbvio na primeira entrada do jogo, mas logo você perceberá como algumas áreas são interligadas e como outras são inacessíveis em um primeiro momento, mesmo em quests iniciais, mas que devem ser completadas somente após avançar em algumas habilidades.


A partir da cabana existem quatro saídas, que representam as quatro estações em que a trama se passa.
A forma de se locomover entre as estações depende da aprendizagem dos “portais”, entre os que teleportam Yaga conforme a flecha os acerta e aqueles em que ela apenas cruza colocando o rosto na abertura.



As localidades são povoadas por animais como cervos, pássaros, raposas e ouriços, além de seres mágicos, entre criações próprias, como os Gnolls (variações de gnomos), os já citados Vodniks, cogumelos falantes, diabretes, abelhas explosivas e outros.



Para salvar, você deve encontrar um altar e colocar uma flor vermelha (referência ao deus Rod, representado pela roseira, talvez?), flor esta que também serve para criação de itens e deve ser obtida no cenário. O gato preto ligado à tradição de Baba Yaga serve como teleporte, levando a arqueira do local onde o encontra até a Cabana e vice-versa; ele pode estar próximo de altares de save ou fogueiras, junto das últimas também é possível encontrar um saco de pano com uma boca e que coaxa continuamente, contendo os itens e ingredientes que a protagonista não pode carregar quando enche a bolsa de inventário.



Ao perseguir espectros, Yaga acaba por enfrentar chefes e trocar de máscara, obtendo visões sobre o passado e acessando sentimentos representados por animais espirituais, em sessões de fuga em plataforma 2D.

AS DUAS FACES DE YAGA
Blacktail possui múltiplos estilos artísticos, sendo o principal no gráfico mais realista, embora caricato do mundo 3D aberto, destacando-se os rostos dos Gnolls (com seus chapéus cônicos) e Cogumelos expressivos, irônicos e “malandros” (sério, cuidado ao falar com alguns deles) aos diabretes rápidos que ficam dançando em volta da Vassoura, quando enfeitiçados por ela. Conforme a protagonista interage com as máscaras e progride na trama, Baba pode ser notada pairando no ar, temporariamente, com tentáculos saindo de seu corpo, como uma miragem que se apaga no ar.


Durante as memórias, ao recuperar uma das máscaras, vemos Yaga e as outras crianças representadas em desenhos, mostrando a interação entre o grupo no vilarejo e no bosque próximo. É nessas figuras que percebemos o tratamento que Yaga recebia, como pária do grupo e da comunidade, em contraponto à Zora.
Na sequência destas memórias, um dos animais espirituais que representa os sentimentos reprimidos de Yaga é incorporado, em uma fuga 2D caótica que mostra o desespero da protagonista em tentar ser aceita pelos locais e os desafios internos que a cercam, transpostos em obstáculos e armadilhas, enquanto o animal circula pelo labirinto, coletando boboks (as estátuas sussurrantes da floresta, aqui servindo como vida extra para o animal).


Ao coletar Aranhas em Âmbar, o Caldeirão revela filmagens reais, cobertas por interferência e ranhuras vermelhas, mostrando ao fundo, olhos, árvores e outras imagens igualmente confusas e desconexas.


A trilha sonora, composta por Arkadiusz Reikowski, brilha com ótimos usos de instrumentos de corda variados, cânticos em uma linguagem que não identifiquei (polonês? russo? ucraniano?), tambores e sintetizadores, dando um toque levemente moderno, amalgamado ao antigo e pagão.
A dublagem em inglês faz um trabalho competente, especialmente as vozes de Valerie Rose Lohman (Yaga), Avalon Penrose (A Voz), Anna Coombes (Baba), Luci Fish (Zora) e Adam Darski (o Gato Preto); sim, o gato fala e Adam é conhecido também como Nergal, vocalista do Behemot.

GRIMÓRIO PLATINADO
A platina de Blacktail é um tanto complexa, dada sua completude de uma lista com vários tipos de coletáveis (crânios de Gnoll, Aranhas em Âmbar, Páginas Perdidas, itens Achados e Perdidos, Sapos), coletar todas as receitas de magia e criá-las no Caldeirão, obtenção de títulos específicos, realização de todas as sidequests, combater todos os cogumelos, etc. Some-se a isto glitchs que podem impactar a obtenção de alguns coletáveis e o fato do jogo não permitir circular livremente pelo mapa após a conclusão da trama (embora haja Novo Jogo +).

RESUMO DA ÓPERA:
Blacktail é um título de dark fantasy, ambientado no seio do folclore eslavo, em torno da bruxa Baba.
Em formato FPS, onde controlamos Yaga, uma menina em busca de sua irmã desaparecida (Zora), em um mapa aberto, dividido em quatro regiões que representam as quatro estações, tendo como hub a Cabana.
A protagonista é uma arqueira, que aos poucos aprende poderes de feitiçaria, em especial para efeitos nas flechas, pode caçar animais para se alimentar, ganhando bônus com isso, ao peso da mudança de moralidade, que afeta o comportamento das facções de cogumelos com relação à garota. Na busca por Zora, Yaga aprende mais sobre si própria, relembrando traumas e momentos vividos com seus amigos de vilarejo, o estigma de carregar uma marca em seu rosto que a força a utilizar uma máscara para cobri-lo e o impacto psicológico de ser a “ovelha negra” da família, em contraparte à irmã, querida por todos.



A pluralidade de estilos gráficos e artísticos permeia paisagens com grande variedade entre pântanos, planícies rochosas, cavernas e bosques, onde habitam cogumelos falantes, diabretes, vodniks, gnolls e outras criaturas (entre inspirações do folclore eslavo e criações próprias); apresentam-se também fases 2D com representações de animais, tentáculos e outros obstáculos em tons mais escuros, além de desenhos à mão mostrando as crianças do vilarejo e gravações reais “escondidas” entre frames vermelhos.
A trilha sonora dá um show com interpretações de cânticos eslavos, instrumentos de corda, tambores e sintetizadores, realçando o sentimento de paganismo e bruxaria.
Blacktail é uma viagem fascinante por uma cultura menos explorada no Ocidente, em especial a lenda da bruxa Baba Yaga, em uma interpretação própria do estúdio estreante The Parasight – e que estreia!
É claro, aqui e ali notam-se algumas faltas de polimento e uns pequenos deslizes, mas mesmo assim (e dado o tamanho do escopo do projeto), é certamente louvável o que foi realizado.
Se vocês gosta de folclore, mitologia e mundos fantásticos, Blacktail é um prato cheio. E eu ainda não superei o fato de que Nergal, do Behemot, está na dublagem…
