
* Esta análise foi feita com o código cedido pela Octopus Embrace (versão PS5)
Distribuidora: Gammera Nest
Produtora: Octopus Embrace
Plataforma: PS5 / PC
Mídia: Digital
Ano de Lançamento: 2024


Back Then é um walking simulator/puzzle onde você experiencia as angústias e tormentos de um portador de Alzheimer.
O MAL DO SÉCULO
O Mal de Alzheimer é uma doença neurodegenerativa, que causa perda progressiva de funções mentais. A forma mais comum de demência da atualidade, o Alzheimer tem como sintomas mais conhecidos a perda de memória recente, confusão com horários e datas, evoluindo para dificuldade em realizar tarefas simples e culminando na perda das funções motoras.

Embora haja uma impressão de que ocorram mais casos de Alzheimer nos dias atuais, é necessário lembrar que o diagnóstico é mais recente que a doença, oficialmente tendo sido diagnosticada pela primeira vez pelo alemão Alois Alzheimer, em 1906, durante o 37º Encontro de Psiquiatras do Sudeste da Alemanha, em Tübingen.

Apesar do caso ter sido relatado em 1906, o lento avanço das pesquisas no campo da saúde mental e o preconceito com tal área causaram um atraso na propagação do conhecimento sobre a doença.
Vale ressalvar que há também certa confusão sobre Alzheimer (e outras demências semelhantes, como a demência por corpos de Lewy, entre outras) e senescência e senilidade, respectivamente o processo de envelhecimento natural do corpo (que costuma acarretar pequena perda da memória) e o desgaste patológico das células (geralmente ligada a outras doenças e que também acarreta perda da memória).

Um cérebro em terceira idade, devido ao desgaste da vida, pode apresentar pequenas falhas de reconhecimento, troca de nomes de pessoas ou pequenas confusões, sendo muitas vezes confundidos com os sintomas iniciais de Alzheimer. Portanto, consultar um neurologista aos primeiros sinais de esquecimentos constantes é essencial para um diagnóstico rápido e um tratamento que possa retardar os efeitos da doença, uma vez que a mesma ainda não possui cura.
BACK THEN
Thomas Eilian, preso à sua cadeira de rodas e à sua casa, enfrenta uma prisão muito pior, dentro da própria mente. Enquanto tenta recuperar suas memórias e registrá-las na máquina de escrever, ele vaga por versões diferentes de sua casa, enquanto vê cômodos mudarem de móveis e outros objetos. A mente fragmentada prega peças em Thomas.


Para evitá-las, diversos post-its espalhados com anotações corriqueiras estão colados em portas e mobília, para lembrá-lo de atividades cotidianas, agora constantemente esquecidas.


A casa é dividida em dois andares, com um elevador na escada para suportar a cadeira de rodas do protagonista e outro dentro da biblioteca, inicialmente trancado à chave.
O objetivo primário é achar as peças da máquina de escrever, para tentar começar o registro.


Back Then é um walking simultador diferente, afinal de contas, você está em uma cadeira de rodas, o que restringe e atrapalha a mobilidade. Para abrir portas de cômodos, armários e gavetas, segure R1 enquanto puxa o analógico direito; objetos podem ser observados com Círculo (que também funciona como zoom).


O título conta com alguns puzzles envolvendo engrenagens e a rotação das mesmas, para mudar os trechos da biblioteca (por exemplo). Ao observar os símbolos nas capas de alguns livros, é possível organizar as engrenagens na configuração mostrada para reconfigurar a sala.


Thomas guia-se principalmente pelo som, seja seguindo o telefone, piano ou mesmo relógio. Mentalmente, ele ouve as vozes dos três filhos, da esposa, da mãe e do irmão. São fragmentos de diálogos, mas que revelam o que a doença causou à família.


Thomas era um escritor de romances e poesias, cuja doença piorou após a morte da esposa, Shirley. A filha, Katie, afastou-se para estudar e demorou a perceber o quadro mental do pai. O filho, Ben, pelo contrário, percebeu a doença do pai, motivo pelo qual começou a ter cada vez menos contato; Charlie, o terceiro filho, ficava constrangido ao ser confundido com o tio, irmão gêmeo de Thomas que foi para a guerra.


Graficamente, Back Then é um título simples, que retrata não apenas a casa, mas também cenários externos, conforme a mente de Thomas o guia de maneira desconexa. Personagens humanos não são diretamente retratados, apenas manequins que surgem em algumas memórias e as mãos do protagonista, enquanto empurra a cadeira de rodas.


A trilha sonora do título é recheada de cordas, especialmente o violino e violoncelo, que retratam a atmosfera melancólica da aventura.
A dublagem (em inglês) faz um ótimo trabalho, com as vozes de Andy Mack (Thomas Eilian), Emme Montgomery (Katie), Tom Antonellis (Ben), Philip Sacramento (Charlie e o irmão do protagonista), Stephanie Novak (Martha, a mãe dos gêmeos) e Felicia Valenti (Shirley). Estas são todas as vozes do jogo e seria injusto ressaltar apenas algumas, dada a alta qualidade do trabalho. O jogo também possui um bom design de som, que ajuda a guiá-lo através das memórias confusas.

A platina consiste em terminar todos os capítulos e pegar todos os coletáveis. Embora um jogo rápido, não há opção de salvamento manual aqui, sendo que o jogador deve desbloquear os capítulos conforme os alcança para poder reiniciar a partir do desejado em uma segunda sessão (caso não queira concluir o título de uma só vez).
RESUMO DA ÓPERA:
Back Then aborda a mente fragmentada de um portador de Alzheimer, já em estágio relativamente avançado. Preso à uma cadeira de rodas após um acidente na escada, Thomas Eilian teve a mente ainda mais deteriorada pela perda da esposa e pelo “abandono” dos três filhos.
Atormentado por memórias confusas e misturadas, Thomas navega pela casa, vendo momentos diferentes de cada cômodo e tentando encontrar chaves “escondidas” para navegar por diferentes área, com o objetivo de cumprir a promessa feita à esposa, de registrar suas memórias.
Enquanto um walking simulator, Back Then é até bastante interativo, embora não hajam grandes desafios nos puzzles apresentados. A narrativa é interessante e o jogo conta com pequenos truques imersivos, como não ter a possibilidade de salvar o jogo (um save nada mais é do que a memorização do ponto em que se encontra e o protagonista não consegue manter memórias recentes) e um outro elemento, mas que seria spoiler e remete ao fim do título.
Os gráficos são simples, mais focados nos cenários , sem representações humanas modeladas, exceto pelas mãos e pernas do protagonista. Durante as memórias intrusivas do passado, momentos fora da casa, em trincheiras de guerra e em meio à neve surgem para atormentar o idoso.
A narrativa se dá através das vozes da família e do próprio Thomas, através de diálogos esparsos, relatando como cada um lidou com a doença do patriarca e mesmo os traumas do próprio, relacionados ao seu passado, em um ótimo trabalho de dublagem no inglês e com trechos poéticos, que somam muito à trama.

O tema é abordado com a seriedade devida e traz momentos reflexivos quanto ao desenvolvimento da doença e o abandono que muitos portadores de Alzheimer sofrem. A execução, entretanto, sofre de alguns problemas, como quedas eventuais de frame rate e o já citado não salvamento da trama que, embora faça sentido narrativamente, acaba por tornar a experiência um tanto estranha ao jogador.
Apesar de alguns tropeços, Back Then é um título cativante, apelando para a conscientização sobre uma doença neurogenerativa que cresce assustadoramente nos tempos atuais, sendo porém mais indicado àqueles jogadores que colocam a narrativa em primeiro lugar.
