
A primeira fotografia do mundo foi tirada pelo francês Joseph Nicéphore Niépce, em 1826.
Uma forma física de registrar um momento, a fotografia evoluiu muito ao longo das décadas, de grandes máquinas para versões portáteis, ainda com os filmes para serem revelados até às máquinas digitais e os celulares.

Agora não mais havia a necessidade de levar o filme até um estúdio para ser revelado e torcer para as fotos terem saído com boa qualidade.
O formato digital facilitou em muito a vida das pessoas (bem, talvez não dos fotógrafos profissionais), permitindo que qualquer um possa tirar uma foto de boa qualidade e avaliar imediatamente o resultado.
Esta facilidade, entretanto, veio com um custo escondido: o desaparecimento dos álbuns.
Enquanto imagens físicas do passado, fotografias eram preservadas em álbuns, registrando casamentos, batizados e festas em geral, “eternizando” a vida de famílias e amigos.

Porém, com as fotos digitais, a necessidade da impressão sumiu (ainda que seja possível imprimi-las e algumas pessoas ainda optem pelo método). Reunir-se para ver fotos antigas em um álbum de família tornou-se coisa do passado; agora as imagens enfeitam posts em redes sociais. Os arquivos podem ser facilmente armazenados em servidores (que o dono só irá visitar para excluir e salvar espaço) ou mesmo serem rapidamente excluídos, quando não censurados por uma IA de automação.

Acho que já ficou bem claro o porquê desta introdução.
Os jogos físicos vem perdendo espaço progressivamente nos últimos anos. Mesmo aqueles jogos físicos ainda lançados, por vezes possuem apenas um código de ativação na caixa ou mídia com parte do conteúdo, dependendo de download para se ter o jogo completo, o que tira completamente o sentido para o colecionador.
Microsoft e Sony já adotam este formato há algum tempo, enquanto a Nintendo era a última resistente ao formato híbrido. Era.

Com o lançamento do Switch 2, com uma capacidade gráfica muito superior ao console original, o tamanho dos jogos passou a ser um problema também para a gigante japonesa.
O cartucho de 64gb não é suficiente para suportar diversos jogos e a solução foi lançar os game-key cards: cartuchos com parte do conteúdo, liberando o acesso ao restante do download.
Chegamos novamente à uma encruzilhada sobre a preservação dos jogos, assunto que já abordei anteriormente na coluna, mas agora quero trazer uma visão diferente, encarnando o advogado do Diabo.
Primeiramente, sim, eu entendo a necessidade de preservação dos jogos, evitando que casos como The Crew, da Ubisoft, jogo que simplesmente deixou de existir, assim como Concord, da Sony, e tantos outros.

A extinção de jogos dentro de uma mesma geração (ou geração anterior, compatível com a atual) é algo grave, tirando o acesso ao conteúdo que os jogadores compraram alugaram.
Mas e quanto aos jogos antigos?
A preservação de mídias é sempre importante e sofre com a migração de novos formatos.
Os filmes já passaram por isto algumas vezes, com obras que nunca foram portadas do VHS para o DVD e outros que nunca passaram do DVD para o Blu-Ray.
Os streamings acentuam o caso, com a constante rotatividade de certos títulos.

Os jogos, por outro lado, possuem um fator interativo que muitas vezes acaba por data-los quanto à jogabilidade. Remasters e remakes estão aí como uma “solução” parcial, na maior parte dos casos exigindo que o jogador recompre a obra que deseja revisitar, com possíveis alterações e/ou censuras em suas novas versões.
Entretanto, enquanto para um estudioso e/ou repórter que queira analisar uma obra antiga, a preservação em seu formato original seja importante, para o jogador médio, até que ponto ela se mostra necessária?

O fator nostalgia, que afeta tantos fãs, pode cegá-los para os “problemas” dos jogos originais.
Produtos de uma outra era, os jogos de PSOne, por exemplo, possuem visuais grotescos para as TV’s e monitores atuais, além de jogabilidades antiquadas.
E qual é a necessidade de se voltar sempre aos jogos antigos?
Não será necessário abandonar algumas coisas e simplesmente seguir em frente?
A retrocompatibilidade, que permite (e facilita) a preservação, nos consoles é relativamente nova; no PC, o processo é mais amigável.
Contudo, enquanto alguns jogos envelhecem muito bem, outros apodrecem com o tempo, “injogáveis” nos tempos atuais.

Iniciativas, como a Stop Killing Games, tentam negociar com as empresas, apelando para a manutenção de jogos, bem como de servidores para funcionalidades online.
A experiência pura, todavia, é modificada a cada patch de correção e rebalanceamento de jogabilidade.
Seria possível preservar completamente um jogo da geração atual? E em qual versão isto seria feito? Quando os servidores forem desligados e os jogos digitais sumirem, bem como os patchs, as versões físicas ainda completas poderão ser acessadas corretamente ou irão se perder, como lágrimas na chuva?

