A busca pelo realismo sempre foi uma constante nos videogames. 
Ainda que muitos enveredem pelo caminho mais lúdico e fantasioso, conforme os jogos (e principalmente os gráficos) avançavam, um desejo constante por mais realismo era inegável.

O realismo exagerado, entretanto, pode comprometer a diversão do jogador.
Aqui, é claro, não falo dos simuladores, estes são um nicho que busca justamente a maior fidelidade possível.
Gran Turismo, talvez o maior referencial nos consoles, aposta justamente nesse realismo da direção para atrair seu público, que se diverte com cada curva bem executada e ajuste apropriado do carro. No PC, há simuladores ainda mais realísticos, apostando pesado na física para simular com perfeição o atrito do ar e outras nuances na aerodinâmica automobilística.

Gran Turismo e seu “divertido” realismo ao configurar corretamente o desempenho dos carros

O realismo, ainda que comedido e seguindo uma lógica adaptável, cria um fenômeno curioso nos quadrinhos da DC Comics, na situação do Batman.
Possuindo uma das mais vastas galerias de vilões, o Homem Morcego enfrenta de adversários puramente humanos a criaturas monstruosas pelos becos e telhados de Gotham City. Apesar da pluralidade de metahumanos, é nas mentes criminosas humanas e perturbadas que o herói fez sua fama.

Isto gera confusão quando o Batman aparece na Liga da Justiça, ao lado de seres superpoderosos como Superman, Mulher Maravilha e Flash, entre tantos outros.
A mente brilhante de Bruce Wayne é sua principal arma, aliada ao corpo treinado para o combate, mas suas limitações humanas o colocam em uma desigualdade brutal em relação aos seus companheiros de equipe.
Como resultado, Batman acaba por ser o gênio investigativo do grupo, ainda que se envolva diretamente nos combates, dando trabalho aos roteiristas que precisam compensar sua mortalidade convencional.

O Batman “realista” de Gotham City
Contrasta diretamente com o Batman que enfrenta seres alienígenas e monstruosos

Por conta destes fatores, Batman é o herói que mais possui títulos simultâneos no mercado, o que garante uma ótima renda para os bolsos da DC Comics, mas cria uma porção de versões diferentes de Batman, adaptáveis conforme a realidade assim o pede. O Batman que opera em Gotham City apela mais ao realismo (dentro de certas limitações), enquanto o membro da Liga da Justiça caminha de peito aberto em direção à fantasia, ainda que continue sendo o humano limitado que é em sua contraparte.

Saber lidar com a dose necessária de realismo é uma arte complexa, que pode gerar desequilíbrios irritantes, como o exagero de Red Dead Redemption 2.
Um jogo que vai muito além do necessário, chegando a ter variações no tamanho dos testículos dos cavalos em relação ao clima, um detalhe profundo em termos de mecânica, mas que não acrescenta em nada ao título.

Você não conhece a frustração até quebrar armas em Breath Of The Wild…

Da mesma forma, mecânicas relacionadas ao peso dos equipamentos carregados e durabilidade de armas podem incomodar os jogadores em diversos títulos, adicionando um realismo limitante em jogos que muitas vezes não pedem por esta condição.

E não para por aí, até mesmo reviews de games podem ser escritos levando-se em conta o realismo dos jogos, caso que ocorreu recentemente com o texto de Mouse P.I. For Hire, na IGN.
O jogo sobre um rato investigador particular (cujo review deste que vos escreve logo estará no ar), inspirado nos cartoons dos anos 30, recebeu duras críticas no review de Will Borger.
O redator fala sobre a dissonância ludonarrativa do investigador que mata policiais corruptos e bandidos às toneladas, o que parece ruim quando descrito assim, mas convenhamos, estamos falando de um jogo onde um roedor, veterano de guerra, lida com seitas místicas, mortos-vivos e até uma visita rápida ao “inferno”.

Um passeio pelo inferno em Mouse: P.I. For Hire, bem realista, não???

Uma certa dose de realismo é sempre bem-vinda aos videogames, mas não nos deixemos levar por ela, a suspensão de descrença se faz necessária para que a diversão não seja estragada.
Se podemos aceitar que um protagonista leve dezenas de tiros e se cure, por que não aceitar que um detetive camundongo mate centenas de semelhantes durante uma investigação?

One thought on “Realismo, Suspensão de Descrença e Diversão

  1. Apesar desse Will escrever para a IGN, criticar um boomer shooter por ser fantasioso é juvenil demais. O camarada precisa de uma reeducação em jogos eletrônicos

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