“E se um dia, ou uma noite, um demônio lhe aparecesse furtivamente em sua mais desolada solidão e dissesse: ‘Esta vida, como você a está vivendo e já viveu, você terá de viver mais uma vez e por incontáveis vezes; e nada haverá de novo nela, mas cada dor e cada prazer e cada suspiro e pensamento, e tudo o que é inefavelmente grande e pequeno em sua vida, terão de lhe suceder novamente, tudo na mesma sequência e ordem — e assim também essa aranha e esse luar entre as árvores, e também esse instante e eu mesmo. A perene ampulheta do existir será sempre virada novamente — e você com ela, partícula de poeira!’

Você não se prostraria e rangeria os dentes e amaldiçoaria o demônio que assim falou? Ou você já experimentou um instante imenso, no qual lhe responderia: ‘Você é um deus e jamais ouvi coisa tão divina!’ Se esse pensamento tomasse conta de você, tal como você é, ele o transformaria e o esmagaria talvez; a questão em tudo e em cada coisa, ‘Você quer isso mais uma vez e por incontáveis vezes?’ pesaria sobre os seus atos como o maior dos pesos! Ou o quanto você teria de estar bem consigo mesmo e com a vida, para não desejar nada além dessa última, eterna confirmação e chancela?”

Nietzsche acreditava que o universo continuaria a se repetir infinitamente, de maneira cíclica


O trecho acima, retirado de A Gaia Ciência, ilustra a ideia de Friedrich Nietzsche sobre o conceito do Eterno Retorno.
Grosso modo, o Eterno Retorno consiste na teoria de que o universo e toda a existência e energia estiveram recorrentes e continuarão a ocorrer, de forma autossemelhante, um número infinito de vezes através do tempo ou espaço infinito, ou de que há um padrão cíclico de certas recorrências, como em eras na roda do tempo.

Sísifo foi condenado pelos deuses a carregar uma imensa rocha ao cume de uma montanha, mas sempre próximo ao final, a tarefa falhava, tendo ele de retornar à base e novamente empurrar o bólido



Esse conceito pode ser observado na História, através da repetição de ideias e comportamentos humanos.
Em igual escala, tal efeito cíclico é notado em outras áreas, como a moda, a indústria do cinema e mesmo nos games.

Recentemente, Stellar Blade trouxe de volta uma discussão comum à indústria, até já abordada em outro texto aqui do site, a famosa Sexualização nos Games. E embora eu não queira realmente retornar ao assunto, eis-me aqui novamente, tentando complementar o texto original (e sim, esse texto é um contraponto ao original!).

As polêmicas nádegas da protagonista de Stellar Blade


As reclamações sobre a protagonista Eve recaem sobre o fato de ela não ser realista, embora seja justamente baseada em uma mulher real, a modelo sul coreana Shin Jae-eun (que você pode conferir no Instagram, aqui, para fins estritamente científicos, claro…).

Shin Jae-eun, a mulher que não existe, segundo algumas críticas


As críticas à protagonista trazem de volta a discussão sobre corpos de mulheres realísticos e sua relação com o combate.
Mas Eve, sendo humana ou não, luta contra contra Naytibas, criaturas que claramente possuem liberdade artística em sua concepção, já que Stellar Blade não é um simulador… então por que a protagonista deveria respeitar as leis da física?

Embora o foco dos desenvolvedores orientais realmente não esteja preocupado com a discussão sobre sexismo do Ocidente, é também necessário entender as famigeradas agendas envolvidas em tais discussões.

Lei de Hooke: “Quando se aplica uma força sobre uma mola, ela se deforma, dando origem a uma força elástica que tem a mesma direção da força externa, mas sentido oposto.”


Conforme movimentos progressistas avançam na sociedade, trazendo modificações positivas para a mesma, surgem também as alas mais radicais, que extrapolam alguns limites.
É o conceito do Efeito Mola (ou Efeito Mola Social), que nos diz que oprimidos (minorias) são “esmagados”, criando a tensão na mola, que em algum momento atingirá o seu limite e irá relaxar, se expandido.

Com isto, frente ao avanço dos movimentos progressistas, que conquistam mais espaços de fala e voz ativa, a mola empurra de volta os opressores (força contrária), retornando ao seu estado natural.
Porém, neste processo, a mola irá ultrapassar seu limite natural, empurrando a força contrária além do “necessário”.

Extremistas eventualmente transformam movimentos


O Efeito Mola na verdade prejudica os movimentos bem intencionados de libertação, trazendo à tona a máxima de que “o sonho do oprimido é ser o opressor”, ou seja, aos poucos tais movimentos e organizações passam não mais a exigir direitos iguais, mas a supremacia.

Reclamações de que a Sony estaria regredindo ao permitir uma protagonista como Eve em um título distribuído por ela, em contraponto à existência de Aloy, uma protagonista menos sexualizada e mais realista, é na verdade uma forma velada de censura (ou tentativa de censura) por uma parte revoltada do jornalismo gamer.

Zanguief e seu “físico possível”


É necessário entender que diferentes públicos possuem diferentes gostos e que, embora de fato haja uma sexualização de protagonistas nos games, ela nem sempre é negativa ou deveria importar tanto para quem joga.
Eu, para exemplificar, não sou um cara musculoso, nem pretendo ser, mas nem por isso me incomodo com protagonistas de músculos “impossíveis” salvando o dia.
E talvez todos devessem ver os jogos assim, votando com suas carteiras quando se sentirem incomodados, não tentando proibir aquilo que não lhes agrada…

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