
Assumindo o risco de datar completamente esse texto, até a postagem do mesmo, a Sony não tinha recuado ante à nova política de parar a produção da mídia física.
Quem matou a mídia física?
Não há um consenso, mas muitos acreditam que a Sony decretou sua morte para Janeiro de 2028, quando ela irá parar de ser produzida no PlayStation.
Mas ela já está morta no PC, há muito mais tempo!

O filósofo taoísta chinês Zhuang Zhou (369 a.C. – 286 a.C.) escreveu a Parábola do Barco Vazio:
“Um homem navega sozinho em um pequeno barco em um lago tranquilo, meditando com os olhos fechados. De repente, outro barco à deriva colide contra o seu. O homem sente uma raiva imediata e abre os olhos para xingar o responsável. No entanto, ao olhar melhor, ele percebe que o barco está completamente vazio. Como não há ninguém ali, a raiva dele simplesmente desaparece, pois não há onde descarregar esse sentimento.”
O PC é uma plataforma aberta, “um barco vazio”, portanto não possui uma empresa responsável.
Ainda é possível lançar jogos em mídia física para ele, mas as produtoras simplesmente pararam. Pararam pois havia um assassino silencioso: o Steam.

Agora, a Sony é um “barco com tripulante”, e aí o homem no barco tem um alvo para sua raiva.
Quando a Sony anuncia que irá parar de produzir jogos físicos, ela coloca um alvo em si própria, atraindo a atenção dos jogadores.

E por que o Steam é o assassino invisível?
Simples, a empresa criou a alternativa mais barata e viável, fazendo com que a mídia física no PC morresse naturalmente.
Não havia quem culpar, a maior parte dos jogadores nem notou a morte da mídia física lá, eles simplesmente aceitaram um novo modelo de negócios.
Mas não se engane: o Steam também vende apenas licenças de jogos.
O GOG, por outro lado, vende os jogos propriamente ditos, garantindo que o jogador os possua “para sempre”.
E vamos ressaltar estas aspas, pois o jogador pode baixar novamente do GOG a qualquer momento, desde que o mesmo ainda esteja na ativa… É claro, quem quiser, pode gravar os jogos comprados lá em algum CD/DVD, ou mesmo armazenar em um HD externo, mas é uma “mídia física” criada pelo próprio jogador, como um backup.

“Você não pode matar o progresso!”
A frase de Adam Jensen, protagonista de Deus Ex: Human Revolution não está errada, mas esconde uma verdade.
Embora o progresso seja imparável, ele traz consigo efeitos colaterais indesejados.
Esse texto era bem diferente algumas semanas atrás, mas decidi não publicar pois o assunto do fim da mídia física pela Sony estava sendo amplamente discutido em todos os sites possíveis, mesmo muitos que sequer falam de jogos.
Não que isto seja uma surpresa: o movimento era inevitável, só não sabíamos quando aconteceria oficialmente, então resolvi fazer o papel de advogado do diabo por aqui.

O digital é um caminho sem volta nos jogos e cada vez mais isso fica claro!
GTA 6 tem a pré-venda da “mídia” física sem a própria, tendo apenas código para download na caixa.
Sob o pretexto de evitar spoilers de vazamentos dos jogos recebidos antes do tempo, havia uma expectativa de que, passado o lançamento, versões físicas reais fossem lançadas pela Rockstar. Mas novos boatos sugerem que não há planos para tal!
Don Mattrick, pivô do desastroso lançamento do Xbox One, teve um vislumbre do futuro, mas agiu antes do tempo.
Tentou avançar o digital quando os jogadores ainda não estavam preparados para tal, dando uma grande vitória de bandeja para o PlayStation 4.

Só que, anos depois, as coisas mudaram…
Ao anunciar o fim da mídia física para o PlayStation, a Sony traz algumas mudanças que foram o motivo da confusão com o Xbox One em seu anúncio e precisaram ser consertadas as pressas para o lançamento: sem a mídia física, acaba o empréstimo de jogos e a conexão com a internet se faz mais necessária, para a verificação de licenças.
Mas a Sony não começou esse movimento, não senhores!
Como citado anteriormente, a mídia física do PC morreu muito antes disso. Quando foi a última vez que você comprou um PC DVD-ROM???
O Steam iniciou um mercado digital imenso e decretou o fim da mídia física, com a praticidade e bons preços; logo outras lojas vieram.

A diferença nesse caso? O fato do PC ser uma plataforma aberta, diferente do que acontece nos consoles.
A Sony tem a PSN, a Microsoft tem a Live e a Nintendo tem o Eshop. Cada plataforma possui seu próprio “monopólio”, ainda que a Microsoft esteja disposta a mudar isso na sua plataforma.
Lembro de conversar com um amigo, já falecido, e ele comentar que, com o avanço do Game Pass, aquilo que o Mattrick tinha tentado e fracassado, os jogadores estavam sendo doutrinados para aceitar mais naturalmente. E, de certa forma, foi o que aconteceu.

Ainda no PS3, eu tinha muito receio com o digital e comprava tudo que possível na mídia física.
O problema? Achar alguns jogos e pagar o valor mais caro, em algumas raridades.
Aí veio o PS4 e, com a grande quantidade de indies e jogos pequenos, que não possuíam mídia física, eu logo me adaptei ao digital, inclusive para títulos AAA.
Quando você vende um jogo usado para outro jogador, na prática, a empresa deixa de fazer uma venda, ou seja, para eles não há diferença entre um usado e um pirata.
E nós estamos no capitalismo, onde o lucro comanda os negócios.

E não discuto aqui se o capitalismo é bom ou ruim, apenas lembro que estamos todos nele; mesmo aqueles que se consideram socialistas/comunistas ou anarquistas, ainda vivem sob o capitalismo e precisam dele para viver.
O capitalismo funciona, mas ele não é justo, nem nunca será, mas é o sistema mais “funcional” que temos, longe de ser perfeito.
O novo Xbox, ainda sem nome, pretende ter uma conversão de mídia física em arquivos digitais, permitindo que os jogadores possam transformar seus discos em jogos digitais.
Ainda não se sabe exatamente como isso será feito, mas parece claro que essa propriedade digital dependerá de um delicado equilíbrio pois, uma vez sem o disco, nada impede da plataforma bloquear ou invalidar futuramente tais jogos digitais, que também dependem de uma contínua compatibilidade nas futuras gerações.

E antes que se fale em boicote à Sony, que aliás, tecnicamente, já está valendo.
Se você ainda está na casa dos 20 anos e acha que pode mudar o mundo, ok, é apropriado à idade. Mas qualquer um acima da casa dos 30 anos que ainda acredite que pode fazer parte de uma revolução (especialmente em um produto supérfluo), está apenas se iludindo. Meu amigo, acorde para a vida, nós somos consumidores de jogos eletrônicos, não revolucionários…
Veja bem, eu não digo que a morte da mídia física seja algo positivo, mas um caminho inevitável.
O último bastião da mídia física deve ser a Nintendo (ainda que a mídia física parcial já tenha chegado até o Switch), , mas acredite, em algum momento, ela também deve ceder.
A comodidade nos dá com uma mão e tira com a outra.
Então qual a solução? Não há muito o que fazer, além de aceitar.
O futuro é descartável, meus amigos, e nós também somos…
