
Sim, já começamos com uma ironia, dado o fato de que o texto a seguir está sendo publicado na internet.
E não me entenda mal, há inúmeras maravilhas pela internet, mas há também muito lixo e desinformação.
O motivo do texto é o surgimento do trailer do novo Assassin’s Creed, agora passando-se no Japão feudal.
Assassin’s Creed Shadows possuirá dois protagonistas: uma kunoichi (ninja feminina) Naoe e um samurai Yasuke. E o problema começa justamente com o segundo protagonista.

Eu já falei sobre Yasuke no review de Samurai Warriors 5, onde ele figura entre um dos personagens jogáveis; ele também está em Nioh, como um dos chefes, com o nome de Obsidian Samurai.
Em ambos os casos, a característica que mais se destaca no personagem é justamente sua etnia.
Yasuke foi um “samurai” negro, que serviu a Oda Nobunaga.
Não se sabe muito sobre a sua vida, mas ele provavelmente nasceu em Moçambique, pode ter tido treinamento marcial na Índia em sua infância/adolescência, antes de ser vendido e/ou recrutado pelos jesuítas.

É neste período, já adulto, que ele chega ao Japão, em 1579, acompanhando o jesuíta italiano Alessandro Valignano. O nome original de Yasuke é desconhecido, bem como boa parte de sua vida, dada a pouca relevância histórica que ele possui.
O que, aliás, é comum há muitos personagens históricos do passado, mesmo figuras mais relevantes, como Miyamoto Musashi e, até mesmo, acredite, Jesus de Nazaré. Fato é que na idade antiga, os registros de pessoas comuns só eram feitos quando tal personagem tornava-se famoso. Desta forma, a infância de Jesus é desconhecida, bem como vários momentos da vida de Musashi e isto repete-se com inúmeros outros.
Yasuke chama a atenção do então Xogum Oda Nobunaga, pelo seu porte físico e pela sua cor de pele. É dito que Nobunaga ordenou que Yasuke esfregasse sua pele, acreditando tratar-se de tinta.
Encantando com o caráter exótico do gigante negro, Nobunaga o torna seu servo, removendo o status de escravo do africano.

É aí que começa a maior parte das controvérsias sobre qual seria a função de Yasuke: apenas um carregador de armas? Um guarda-costas? Um samurai? Uma demonstração de status do Xogum?
Nobunaga era conhecido pelo interesse no Ocidente, tendo importado rifles, uma arma até então desconhecida nas terras nipônicas (através das quais ele derrotaria a até então imbatível Cavalaria Takeda).

A convivência entre Yasuke e Nobunaga é de curto período, dada a derrota do Xogum no Incidente do Templo Honnoji, onde Akechi Mitsuhide o força a cometer seppuku.
O destino de Yasuke após estes eventos é também incerto, tendo sido provavelmente poupado por Mitsuhide e devolvido aos jesuítas.

Finda esta participação, Yasuke desaparece dos registros históricos, deixando uma série de dúvidas sobre sua vida e até questionamentos de uma parte dos historiadores sobre sua real existência.
Mas não o imaginário popular, que o carrega até hoje como uma lenda do Japão.
Seus feitos e suas ações repercutem-se em obras nos animes, mangás, filmes, séries e até video games.
Como citado no início, ele já esteve presente em outros títulos, mas sua participação não suscitava debates.

Acontece que Assassin’s Creed é sua primeira aparição mais mainstream, chamando a atenção de gladiadores online por todo o mundo.
Repentinamente, de bueiros e moitas surgem inúmeros “historiadores” especializados na vida de Yasuke, debatendo seu cargo, sua importância e seu status, mesmo que os registros oficiais pouco revelem sobre a vida do mesmo.
Vale lembrar que Assassin’s Creed é uma obra de FICÇÃO, que envolve elementos históricos.
Já tivemos Ezio matando Rodrigo Bórgia (o Papa Alexandre VI), George Washington como um tirano na dlc de Assassin’s Creed 3, um ser da Antiga Civilização, tido como um deus, incorporando em um ser humano (sem spoilers pois é um evento importante), entre tantos outros.

Uma obra ficcional não possui a necessidade de ser estritamente presa à realidade.
Há casos mais sérios, como o documentário da Netflix sobre Cleópatra, que muda a etnia da mesma por questões ideológicas, sendo aí sim algo grave, pois está deturpando a realidade enquanto veste o manto de documentário.
Yasuke como um samurai, independente do que ele tenha sido na vida real, é apenas uma interpretação levemente baseada na história real, sem pretensões de ensinar pessoas a realidade sobre uma figura que poucos registros possui de sua própria existência.
É claro que isto não impede os Guerreiros do Teclado de baterem-se em diversas discussões acaloradas e trocas de insultos para validar suas ideologias políticas.
Ah, que saudade do mundo sem internet…
