
Este artigo discutirá eventos de Silent Hill 2 COM SPOILERS, siga por sua própria conta e risco…

James Sunderland é um dos personagens mais complexos do mundo dos games.
Tomado pelo remorso e pela melancolia (no sentido freudiano, voltaremos a isso), ele embarca em uma missão impossível: encontrar sua esposa morta, que lhe enviou uma carta, convidando-o a visitar Silent Hill.
James sabe que Mary está morta: ele mesmo a matou!
O segredo sombrio revelado durante o jogo é justamente esse assassinato: o que James cometeu por não suportar mais ver Mary definhando com a sua doença.
Então, se James sabe que Mary está morta, por que ele vai até Silent Hill na esperança de encontrá-la viva?
Bem, na verdade James não processou o luto, ele entrou no processo de melancolia.
A melancolia pode ser vista como um sentimento contínuo de tristeza e já foi até mesmo vista como algo “enriquecedor” durante as eras da Renascença e do Romantismo.

Mas foi Sigmund Freud quem classificou a melancolia como um luto sem perda necessária, onde o indivíduo deixava de sentir prazer ou ver utilidade para si próprio na sociedade, diferenciando-se do luto pela perturbação da autoestima, que resulta em punição, algo essencial na obra de Silent Hill. Essa melancolia de Freud é semelhante à depressão nos tempos atuais, já que tal conceito não existia à época.
E é esta melancolia freudiana que James sofre, de certa maneira.
Ele não lembra de como aconteceu a morte da esposa, lembra-se apenas de que ela estava doente.

Silent Hill é não apenas uma cidade, mas um purgatório em vida, um local que pune manipulando os pecados que nela adentram.
Como vemos em Silent Hill f, a outra dimensão de Silent Hill não está presa ao local físico, podendo manifestar-se em qualquer parte do mundo.
Dentro da cidade, James é confrontado por seus sentimentos e pela culpa que carrega. Perseguido pelo carrasco que deve puni-lo, representado por Pyramid Head; encontra seres distorcidos e presos, seu sentimento de culpa e incapacidade de agir; enfermeiras com vestimentas sexys, mas sem rostos, representando o desejo sexual reprimido, etc.

Maria, por outro lado, é a parte provocativa e sensual que James desejava e não podia ter mais de Mary após a doença: sua esposa estava “deformada”, com manchas pelo rosto e corpo, James não conseguia mais olhar para ela.

No remake, é possível encontrar outros corpos de James pelo caminho, o que sugere que a cidade possui um looping temporal de punição: ele já esteve na cidade outras vezes e morreu.
Estaria então James ainda vivo, ou ele morreu e está preso em Silent Hill como seu purgatório pessoal?
A aceitação de seu luto, durante o progresso da trama, leva-o a relembrar os últimos momentos com a esposa e o seu assassinato.
É quando ele lembra completamente do ocorrido que ele por fim enfrenta Mary, um monstro-mulher, presa em uma cama de hospital, embora haja outra opção de “monstro final”.

Silent Hill 2 é uma viagem pela psiquê deturpada de James, em seu complexo para, afinal, aceitar o luto pela morte de Mary.
A natureza violenta da morte reflete os ataques sofridos pelo protagonista, que está sendo punido por si próprio, mais do que pela cidade.
E é justamente isto que torna o título tão fascinante!
James se vê, inconscientemente, como seu próprio vilão, projetando a sua culpa em uma punição externa, enfrentando seus demônios sem entender que o faz. E o jogador, que a princípio vê James como vítima das circunstâncias, acaba por entender que James é também o “vilão” da trama, ainda que em “menores” circunstâncias.


Outra coisa que vale citar é que no remake é revelado que existe um tipo de doença parecida com a tuberculose que assolou alguns moradores/prisioneiros da cidade e que pode ser também a doença contraída por Mary a contaminação da água do lago toluca.
De fato, naqueles documentos encontrados, né? Não lembro agora se era no jornal ou alguma anotação.
Aliás, não sabia que isso era só do remake, curioso como eles costuraram algumas coisas explicações pra deixar mais redondinha a trama.