
* Esta análise foi feita com o código cedido pela Valkyrie Initiative (versão PS4/PS5)
Distribuidora: Valkyrie Initiative
Produtora: The Growing Stones
Plataforma: PS4 / PS5 / Xbox One / Xbox Series S / Xbox Series X / Switch / PC / Linux / macOs
Mídia: Digital
Ano de Lançamento: 2024


The Mildew Children é um jogo de aventura 2D e visual novel sobre uma convenção de bruxas tentando realizar um ritual para salvar o vilarejo que as abomina.
CONVENÇÃO EM APUROS
Kyrphel é uma jovem bruxa que vive em um vilarejo habitado apenas por crianças, de uma pequena convenção (covenant) de bruxas, com duas “irmãs”, Vavna e Lyrida. Últimas de sua linhagem, as três bruxas são hostilizadas pelos demais habitantes, que as temem.


Ao detectarem que a Noite Longa se aproxima, elas precisam realizar o ritual de Dormition, para impedir que a Senhora da Morte consuma a vida de todos os habitantes locais. O problema é que Eya, a quarta bruxa, morreu recentemente, e o ritual precisa ser realizada por quatro bruxas.


É neste ponto que surge uma nova bruxa em potencial, Oplucea, protegida por Adekheena, a Mãe das Raízes e sacerdotisa local. Kyrphel tenta recrutá-la, sendo que a jovem fica trancada no templo local, protegida da luz do sol por uma máscara e luvas que ela nunca tira.
As bruxas acreditam que, ao morrerem, reencarnam em outra pessoa, motivo pelo qual Kyrphel decide tentar o ritual para fazê-la renascer como a quarta bruxa, contando para isto com a ajuda de Littlegrave, a Serva da Morte que cuida dos corpos no vilarejo.


CONVERSANDO TODOS SE ENTENDEM
The Mildew Children é um adventure 2D fortemente baseado em texto, com um lore complexo e baseado em diversas parte da mitologia e folclore eslavos, tradições pagãs e contos de fadas, em uma curiosa mistura.


Os personagens, em especial as bruxas, falam bastante e a dublagem (em russo) ajuda a manter o ritmo interessante, sem cansar o jogador pela leitura extensa.
Grande parte das consequências são baseadas nas escolhas de diálogos, alguns com tempo de reação.


Contudo, os elementos de adventure e quick time events ajudam a dar variedade ao jogo, contando com invocações de encantamentos através do pressionar do botão X no momento certo, momentos em que Kyrphel precisa controlar a respiração e os batimentos cardíacos, através do analógico esquerdo, para não morrer (devido a um ritual mal sucedido, a protagonista sangra pelos olhos e nariz quando sob stress). O controle do analógico precisa ser realizado enquanto o jogador lê o texto e escolhe as opções corretas de diálogo, então prepare-se para momentos realmente tensos! (o jogo possui, inclusive, opção de dificuldade quanto a estes QTE’s durante diálogos).


De forma semelhante, ao tentar convencer um NPC, uma barra de confiança surge abaixo da foto do personagem, precisando as respostas escolhidas manterem o medidor o mais alto possível; caso ele desça até o fundo, o personagem irá discordar totalmente da protagonista. E, dado o baixo nível de credibilidade das bruxas no vilarejo, é preciso muita persistência para convencer os aldeões…
MORTE BUCÓLICA
A arte do título é um de seus destaques, desenhada à mão, com traços suaves e personagens expressivos.
Animações sutis no movimento respiratório e das roupas, bem como o vento batendo em árvores e arbustos, contribuem para a imersão das paisagens desoladas do vilarejo e bosque ameaçador que circunda o local.


Dada a natureza pagã/selvagem da obra, o uso do sangue e violência é uma constante, seja pelo sacrifício de cordeiros para rituais, seja pela forma de encarar a morte nessa sociedade. Littlegrave carrega e coleciona alguns ossos dos mortos pelos quais é responsável.
Em contraste com o vermelho vivo do sangue e o brilho dos espíritos, o jogo utiliza cores mais sóbrias e tons pasteis, refletindo a realidade rural e afastada da vila.


A trilha sonora é discreta, focada especialmente nos instrumentos de corda, com pequenos acordes, especialmente aquele entre a transição de capítulos.
A dublagem em russo sustenta o jogo, dada a quantidade massiva de texto, mantendo um bom ritmo, destacando-se as vozes de Christina Sherman (Kyrphel), Anna Galitskaya (Oplucea), Vasilisa Eldarova (Littlegrave), Eva Finkelstein (Vavna), Elena Markelova (Lyrida) e Anastasia Lapina (Adekheena).

LUAR PLATINADO
A platina de Mildew Children não é difícil, embora possa envolver múltiplas runs, ou múltiplos saves, dependendo de como o jogador se programar.
Enquanto uma boa parte dos troféus é relacionada à conclusão dos capítulos, troféus mais específicos podem resultar e/ou ser afetados pelas decisões da protagonista.


Encontrar diferentes espíritos, ajudar crianças do vilarejo em “side quests”, vencer uma partida de Festa do Touro (jogo de adivinhação e lógica), fazer os múltiplos finais, executar perfeitamente os rituais de Iniciação e Dormition estão entre estes troféus, que em geral pedem atenção e boa memória do jogador, especialmente quanto às instruções ritualísticas.
RESUMO DA ÓPERA:

The Mildew Children é um conto sombrio sobre um vilarejo habitado apenas por crianças, onde crenças pagãs e bruxas lutam pela sobrevivência.
Um título que mistura elementos de adventure e visual novel, o jogo possui foco nas conversas, que são brilhantemente interpretadas no idioma original (russo), com muitas horas de áudio, impedindo que o ritmo das falas seja cansativo.
A arte, sóbria e melancólica, possui belas animações feitas à mão, em cenários que combinam elegância e o grotesco. As personagens são marcantes e carismáticas, mesmo Vavna, a bruxa mais fatalista do grupo.
A amálgama dos elementos de paganismo, folclore e mitologia eslavas é muito interessante e densa, porém um tanto confusa para o jogador, especialmente nos primeiros momentos do jogo. Fica a impressão de que o autor criou um lore muito interessante, mas talvez tenha descartado partes essenciais para uma melhor compreensão da trama (ou ele simplesmente quis manter o ar de mistério).

Uma aventura intrigante nas entranhas de um vilarejo com antigas tradições relacionadas à morte, The Mildew Children possui uma narrativa rica e uma execução visceral em conceitos macabros, realçada pelo uso exclusivo de crianças, bem como um forte apelo ao Sagrado Feminino e às sociedades matriarcais, tão comuns ao paganismo.
