
* Esta análise foi feita com o código cedido pela Konami (versão PS5)
Distribuidora: Konami
Produtora: NeoBards Entertainment
Plataforma: PS5 / PC / Xbox Series S / Xbox Series X
Mídia: Física e Digital
Ano de Lançamento: 2025


Silent Hill f é um jogo de terror psicológico onde Shimizu Hinako precisa enfrentar monstros na cidade de Ebisugaoka, após o aparecimento de um nevoeiro e uma vegetação vermelha e contagiosa.
REVOLTA X TRADIÇÃO
Hinako é a segunda filha da família Shimizu, que vive na pequena cidade montanhosa de Ebisugaoka, durante os anos 60.
Uma colegial revoltada, Hinako tem constantes brigas com os pais, por conta de seu temperamento inadequado à tradição japonesa, contrastando diretamente à calma Junko, sua irmã mais velha.


Enquanto Junko segue a tradição local, Hinako não aceita a noção de que as mulheres devem se casar e servir ao marido, em grande parte por conta do comportamento agressivo do pai, um alcoólatra, e da subserviência de sua mãe.


Em meio à mais uma discussão, ela parte para a rua, em busca dos amigos, Shu, seu parceiro, o menino que sempre a tratou como igual, Rinko, a garota fiel às regras e Sakuko, a menina sonhadora.
Durante o encontro, uma névoa surge na cidade, trazendo consigo o avanço rápido de flores vermelhas, que começam a corromper o vilarejo.


CULTO À INARI
Em alguns momentos, ao ser nocauteada ou dormir, Hinako é transportada para outra realidade, com templos destinados à adoração de Inari Okami. Lá ela segue o Homem Raposa, um jovem que traja uma vestimenta ritualística branca e uma máscara de raposa.


Inari é uma das divindades do Xintoísmo (fazendo também parte do panteão Budista), associada à fertilidade, arroz, agricultura, indústria, prosperidade, chá e saquê, além de ser a deusa das raposas, que são suas mensageiras.


Segundo a lenda, Inari Okami surge dos céus, montada em uma raposa, à época da criação do Japão, quando o país passava por uma grande fome. Trazia consigo feixes grãos e cereais, o que a tornou associada à agricultura e ao arroz e seus derivados, como o saquê. Refiro-me aqui à ela, em relação ao jogo, embora Inari possua também representações masculinas e andrógenas.



Inari é a entidade com mais templos no Japão, aproximadamente um terço; associada fortemente às raposas e kitsunes (raposas espirituais no folclore), ferir um destes animais é considerado uma afronta à entidade. Sua comida favorita é o Abura-Age, um prato à base de tofu frito, presente como um dos itens que podem ser oferecidos nos santuários da deusa para obter Fé.
COMER, REZAR, MATAR
Hinako é uma estudante, então suas habilidades físicas não são muito chamativas. Saúde, Fôlego e Sanidade podem ser aumentados nos santuários de Inari, ao custo de Fé e Ema (placa de madeira); a Fé, como citado anteriormente, pode ser obtida ofertando itens ao santuário, já emas devem ser encontradas pelo cenário e são um tanto raras, então esteja atento, pois cada upgrade necessita de uma placa.


O fôlego (stamina) é gasto ao correr e durante as lutas, bastando aguardar em repouso para que se restabeleça, já a saúde e a sanidade precisam ser repostos com o uso de itens, como kits de primeiros socorros, bandagens, chocolates, arares (biscoitos de arroz), chá de kudzu e cápsulas vermelhas (analgésicos), entre outros.



Amuletos (Omamoris) podem ser equipados para melhorias de combate e status. A maior parte deles pode ser sorteada ao gasto de uma pequena quantia de fé, nos santuário; há alguns omamoris secretos, escondidos pelos cenários.


Dentre as armas disponíveis (apenas para combate corpo a corpo), temos canos, foices, facas de cozinha e machados, entre outras opções (algumas são spoiler). Todas as armas do jogo gastam com o uso, até se quebrarem; para evitar tal efeito, use um kit de ferramentas (encontrado no cenário). Você pode carregar até três armas por vez.


O combate funciona através do R1 para golpe rápido e R2 para golpe forte; ao segurar L2, é possível contra-atacar com R2 no momento certo (o inimigo apresenta um “flash” no contorno antes de avançar) ou um golpe crítico com R1 (ao atingir o limite do marcador de círculo). O Foco, contudo, gasta sanidade ao ser utilizado.
É possível esquivar com Círculo e, ao executar o comando no momento do impacto do golpe, obter uma Esquiva Perfeita, que abre a guarda do inimigo para ataques mais fortes.


MORTE CARMESIM
O jogo possui belos gráficos, utilizando a Unreal Engine 5, o que pode causar alguns engasgos nas transições de câmera, caso o jogador opte pelo modo Qualidade; no modo Performance, o jogo roda mais liso, inclusive com taxa de framerate maior.


Ambientada nos anos 60, Ebisugaoka é uma cidade montanhosa interiorana, com visual bucólico das plantações de arroz, contrastando com as pequenas ruas da cidade. Durante o avanço da névoa e das estranhas plantas vermelhas, a cidade encontra-se abandonada, à exceção do pequeno grupo de estudantes, mas povoada por monstros que vão de bonecas com foices e facas a criaturas feitas das plantas e flores vermelhas, passando pelos amontoados de carne, rostos e plantas que perambulam cuspindo sangue.


A vegetação vermelha espalhou-se, bloqueando ruas e becos, forçando a protagonista a encontrar caminhos alternativos par avançar e também para fugir, quando a névoa avança rapidamente sobre ela.
Os monstros podem (e vão) armar emboscadas nas esquinas e locais estreitos, devendo ser evitados com a esquiva no momento certo.


Em paralelo, o Outro Mundo para onde Hinako é transportada, é mais sombrio e escuro, com esparsas luzes de lanternas de pedra e a lanterna azul do Homem Raposa. Os templos são iluminados por velas e povoados por incontáveis estátuas de raposas, construídos em madeira maciça e com portas de treliça.


É nos templos que se encontra a maior parte dos puzzles, engenhosos e variados, de combinações numéricas de cadeados a poemas que revelam ações necessárias e esquemas de peças. Destaca-se o campo com as “estátuas”, onde ao retirar-se o pino errado, a boneca passa a perseguir e atacar o jogador.


Os personagens são bem modelados, baseados em atores japoneses, embora haja um leve Uncanny Valley, especialmente com Iwai Shu.
A atuação em japonês brilha nas vozes de Kato Konatsu (Hinako), Yasue Kazuaki (Homem Raposa), Osaki Natsuki (Iwai Shu), Iijima Yuuka (Nishida Rinko) e Goda Eri (Igarashi Sakuko).


A trilha sonora é baseada, em grande parte, na música tradicional e folclórica japonesa, com um grande uso de flautas. Atmosférica e inquietante, destacam-se as duas músicas de encerramento, cantadas por corais de crianças e com letras bem sugestivas (devidamente legendadas no jogo), que refletem parte da natureza da trama e dos conflitos de Hinako. Assinam a trilha sonora Akira Yamaoka (compositor tradicional da série) para a cidade e Kensuke Inage para a trilha da outra realidade.
IKEBANA PLATINADA
A platina de Silent Hill f é um tanto burocrática como difícil, a depender das habilidades do jogador.
São necessárias ao menos 3 runs completas e uma parcial, para os diferentes finais (o jogo possui 5).
Há vários troféus que podem ser perdidos, sendo recomendado usar um guia após a primeira run.

Afora os troféus relacionados à trama e aos finais, Fazer upgrade completo de Saúde, Fôlego e Sanidade, Obter todos os itens que aumentam o inventário, Obter todos os Omamoris comprados nos santuários, Obter todos os Omamoris secretos, Obter todos os documentos da Família Tsuneki, Obter todos os diários de Sakuko e Obter todos os diários de Rinko, dentre outros.

Grande parte dos troféus de combate e puzzles estão relacionados a eventos específicos, que não mencionarei por conta de spoilers (assim como algumas mecânicas).
Além disso, é necessário completar o jogo com as três dificuldades de combate e puzzle (Narrativo, Difícil e Perdida na Névoa); a dificuldade Casual não conta, pois foi inserida via patch, após o lançamento do título.
RESUMO DA ÓPERA:

Silent Hill f é um jogo de terror psicológico ambientado na cidade japonesa de Ebisugaoka, durante os anos 60, durante o avançar de uma estranha névoa e o surgimento de flores vermelhas tóxicas.
Acompanhamos Shimizu Hinako, uma estudante que se revolta com a família por conta das rígidas regras da sociedade japonesa, especialmente no que concerne a casamentos.

Uma jovem frágil, Hinako precisa se defender das ameaças da cidade, com monstros disformes e ameaçadores, buscando encontrar e salvar seus amigos, ao mesmo tempo em que é levada ao culto da deusa Inari, em outro mundo.
Durante a jornada, intenções ocultas de suas amizades são reveladas, mostrando pensamentos sombrios e traiçoeiros que circundam seus círculos de convivência, incluindo colegas de escola e a própria família.
Acontecendo em duas realidades paralelas, o jogo possui um alto nível de gore, incluindo cenas grotescas de automutilação e um ambiente opressor, com uma trama pesada e intimista.
Os cenários são vastos, incluindo a cidade propriamente dita e o interior de algumas construções, bem como o escuro pântano da outra realidade, com imponentes templos. Tudo é retratado em belíssimos gráficos, revelando a corrupção causada pelo avançar da névoa e das plantas escarlates.

A dublagem em japonês faz um excelente trabalho, complementada por um ótimo trabalho sonoro (em especial com o uso do Dual Sense) e uma trilha sonora mesclando temas clássicos japoneses a tons mais sombrios.
Com grande foco no combate, Silent Hill f pode causar estranhamento aos veteranos da franquia em um primeiro momento, mas o peso da trama e da ambientação, bem como os puzzles elaborados, acabam por desfazer esta “barreira de gelo” dos mais céticos.
Ao avançar do enredo, mais e mais profundo ele se torna, com situações extremas, tornando-se um verdadeiro mergulho na psicose e na mente “doentia” (na falta de um termo melhor) do roteirista Ryukishi07 (sim, o mesmo de Higurashi; se você conhece a obra, você conhece…).
Desta forma, Silent Hill f é uma grande adição à franquia, a primeira significativa continuação após os quatro jogos originais (e o remake do 2, obviamente). Um jogo que aposta no terror oriental pela primeira vez dentro da série, elevando o nível do gore e dos traumas àqueles que se aventurarem pelas terras de Ebisugaoka.
