Separados Por Uma Mitologia

Desafiando um deus, o rebelde oferece uma nova habilidade/compreensão do mundo aos humanos, que podem evoluir.
A quem esta descrição se refere?

Duas mitologias possuem personagens semelhantes, com punições igualmente torturantes (e eternas), porém o status e a fama que tais rebeldes receberam são opostos. 

Em primeiro lugar, temos o titã Prometeu, responsável pela supervisão da criação dos seres humanos (embora fontes divirjam). Enquanto Epimeteu, seu irmão, criou os animais e os seres humanos, Prometeu deveria acompanhar tal tarefa de perto.
Tendo Epimeteu esgotado os recursos das características nos animais, fez o homem do barro (versão de Hesíodo) e recorreu ao irmão.

Em algumas versões, é Prometeu o criador da humanidade; em outras, seu irmão, Epimeteu

Prometeu então rouba o fogo dos deuses, garantindo a superioridade dos seres humanos sobre os outros animais. 
Tal atitude desperta a fúria de Zeus, que o pune com o aprisionamento no Cáucaso, acorrentado para ter seu fígado devorado por um abutre, pela eternidade (ou por 30.000 anos). 

Mais tarde, Hércules o libertaria, após um acordo com Zeus, onde Quíron, o centauro, professor de vários heróis gregos, sacrificou sua imortalidade pela soltura do titã. Atingido por uma flecha envenenada, Quíron não conseguiu curar-se do ferimento e optou pelo acordo, a ter uma vida eterna de sofrimento.

Ao se sacrificar para salvar Prometeu do castigo, Quíron é transformado por Zeus na constelação de Sagitário

Em God Of War 2, Kratos é quem “liberta” Prometeu de sua penúria, mas de uma forma bem menos sutil. Para obter a Fúria dos Titãs, a pedido do próprio, o Fantasma de Esparta o joga para baixo de seu calvário, a princípio pendurado pelo pescoço, como que enforcado e depois caindo sobre o fogo, que o consome.
Morrendo pelo poder que concedeu aos humanos, Prometeu recebe uma morte “poética”, ainda que pela brutalidade do Kratos do “Antigo Testamento”.

Em God Of War 2, Prometeu suplica pela morte nas mãos de Kratos, para assim se livrar de seu tormento diário

E falando em Antigo Testamento, temos o segundo rebelde: Lúcifer.
Bem, primeiro vamos esclarecer que Lúcifer, segundo algumas fontes, é um erro de tradução do hebraico para o grego. O brilhante filho do alvorecer passou a ser o portador da luz (Luciferus), o nome do planeta Vênus na língua latina.
Tanto que é Lúcifer é citado apenas uma vez na Bíblia, em Isaías 14:12“Como caíste do céu, ó estrela da manhã, filho da alva! Como foste cortado por terra, tu que debilitavas as nações!”

Eternizado como o arcanjo orgulhoso em Paraíso Perdido (John Milton), Lúcifer se recusa a obedecer o homem, sendo expulso por Miguel

Então, apesar de Lúcifer originalmente não estar no texto, que possivelmente se refere a um orgulhoso rei babilônico, o demônio é citado muitas vezes na Bíblia, sendo Samael quem se torna Satanás.
Outras fontes, entretanto, associaram o mito do anjo caído (Samael originalmente?) à figura de Lúcifer, e é nela que nos ateremos.

Talvez eu já tenha citado a trindade demoníaca anteriormente (Lúcifer, Samael e Belzebú). Conquanto Satanás (originalmente Samael) seja aquele que possui a serpente para tentar Adão e Eva no Paraíso, oferecendo o fruto do Conhecimento à Mulher, Lúcifer é visto como o mais belo dos anjos, o arcanjo originalmente mais próximo de Deus, mas que se rebela por desprezar o Homem.

A imagem do demônio com chifres foi mesclada ao arcanjo caído Lúcifer

Amalgamadas as tramas, Lúcifer passa a ser propriamente Satanás, oferecendo o Conhecimento sobre o Bem e o Mal à Eva e Adão.
Deus, vendo que os primeiros humanos haviam-no desobedecido, expulsa-os do Jardim do Éden.
Lúcifer, por sua vez, é expulso dos Céus pelo Arcanjo Miguel, sendo jogado ao Sheol, o mundo dos mortos, que se tornaria o Inferno, morada dos anjos caídos e local de punição às almas corruptas.

Nos jogos, bem… o Demônio, Satanás ou qualquer outro nome, é figura cativa, seja como “demônio” em Shin Megami Tensei (aqui em um sentido mais amplo e menos maniqueísta), o chefe final de Cuphead ou mesmo de Dante’s Inferno.

O Diabo, vilão final de Cuphead, fez um pacto para obter as almas dos irmãos Cuphead e Mugman

Lúcifer é uma figura rebelde da mitologia judaico-cristã, sendo no Judaísmo visto como o Acusador, aquele que desafia os humanos, enquanto no Cristianismo é visto como a fonte do Mal.
Tomando o Cristianismo como a principal versão aqui citada, Lúcifer está destinado a desafiar Deus novamente (durante o Apocalipse) e ser vencido definitivamente por Jesus Cristo, ficando assim aprisionado por mil anos.

Contrariamente a outras figuras rebeldes de diversas mitologias, representados geralmente como os trapaceiros Loki, Anansi e Sun Wukong, Lúcifer e Prometeu não possuem uma redenção em suas histórias.
Prometeu é libertado por Hércules, mas pouco se sabe sobre um perdão por parte de Zeus, enquanto Lúcifer é aquele incapaz de admitir o seu erro e continua tentando influenciar a humanidade e combater Jeová.

Sun Wukong, o Rei Macaco, de Jornada ao Oeste, um trapaceiro clássico da mitologia chinesa

Apesar disso, Prometeu é visto como um “herói” e criador da humanidade na mitologia grega, enquanto Lúcifer é aquele que deseja a vingança e o faz através dos seres humanos.

É claro que nos jogos, especialmente quando falamos de Lúcifer/Satanás, tudo depende da origem do jogo.
Nos jogos ocidentais, ele sempre é o vilão, nos jogos japoneses, pode ser uma figura mista, local onde geralmente pode ser categorizado como um trapaceiro (trickster), dada a visão filosófica diferente dos povos orientais.

Uma das várias formas de Lúcifer ao longo da franquia Shin Megami Tensei

Fato é que Prometeu e Lúcifer, dadas as devidas proporções e suas origens, são dois lados de uma mesma moeda.
O arquétipo do rebelde que faz um sacrifício pela humanidade, sendo Lúcifer visto por alguns como libertador, enquanto pela maioria como entidade maligna.

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