Estava eu outra vez pensando sobre a morte (o evento geral, não a minha, calma gente, sou neurodivergente mas me trato!) e como diferentes obras são encaradas de maneiras adversas, mesmo tratando do mesmo assunto.

Tá confuso, então vamos organizar!
Primeiramente, Memento Mori é uma expressão latina sobre a finitude da vida, ou seja, lembrar de que somos mortais. Essa expressão não é incidental, tenho lido um pouco dos filósofos estoicos (Sêneca, Epiteto e Marco Aurélio) e o Memento Mori é um tema recorrente deles.

Epiteto, o escravo que se tornou filósofo estoico

Ao lembrar-nos de nossa mortalidade, percebemos que nossos problemas, bem como nossas vidas, são temporários.
Em 150 anos, eu e todos os leitores do site estaremos mortos, bem como nossos amigos, parentes, inimigos e amores.

Mas ao invés de lamentar este fato, os estoicos escolhem encarar tal “prazo de validade” como algo motivador. Se nossos problemas morrerão, eles não são permanentes, mesmo que possam nos parecer obstáculos intransponíveis.
É claro que isto acaba por não incluir (necessariamente), o suicídio. De novo, gente, estou fazendo tratamento, isso é só uma divagação, ok?

Kratos tentou em God Of War…

O suicídio é visto como “uma solução permanente para um problema temporário”, o que de fato é verdade, ainda que alguns casos sejam mais “justificáveis” do que outros.
Explico: alguém que sofra um acidente e se torne um vegetal, talvez um paraplégico ou tetraplégico, pode ver no fim de sua vida um fim do sofrimento. Então a eutanásia, ainda que crime em muitos países, é uma forma de “resolver” o problema. E aqui falo de uma solução puramente biológica, pois além disto, ela esbarra em temas éticos, morais e religiosos.

Porém, enquanto os casos citados acima e alguns outros possam ser justificáveis (mesmo quando duvidosos), temos outros casos onde o suicídio parece muito mais banal e vão, como aqueles perpetrados por amores não correspondidos e por traições. E, invariavelmente, boa parte deles será tentado/cometido por adolescentes.

Ixtab, a deusa maia do suicídio (versão Shin Megami Tensei)


Na adolescência, tudo parece permanente e eterno, contrariando a ideia de Memento Mori.
As pressões sociais e o bullying parecem confinamentos de onde é impossível escapar, mas as coisas melhoram com o passar do tempo, mesmo que certas cicatrizes sempre permaneçam.
O cyberbullying, por outro lado, torna as coisas piores e mais atemporais, mas já me desviei demais do assunto.

Nesse contexto, duas obras literárias que tratam sobre o suicídio recebem tratamentos completamente diferentes.
Os Sofrimentos do Jovem Werther, de Goethe, tornou-se infame e maldito pela sua romantização do assunto, muitas vezes banido seguindo a teoria de que quanto mais se fala do assunto, mais ele permanece na mente das pessoas.

Romeu e Julieta: o suicídio “autorizado” pela sociedade


Entretanto, uma obra famosa e aclamada do romance inglês, utiliza o tema como final de sua epopeia trágica, sem ter o mesmo alarde sobre o assunto.
Sim, estou falando de Romeu e Julieta, de Shakespeare, talvez o maior clássico do amor proibido na literatura, que acaba justamente com um suicídio do casal. Curiosamente, nunca vi uma problematização de Romeu e Julieta, talvez pela forma como é descrito, em comparação ao livro de Goethe.

Enfim, para não dizer que não falei de flores jogos, Memento Mori é algo relativamente comum, já que constantemente checamos nossa vida e até consideramos a quantidade de dano que iremos receber (que o diga nos jogos Souls).

O suicídio também possui vertentes diversas, sendo aqueles “justificáveis” como os sacrifícios por uma causa maior (vide Dom, em Gears Of War) ou como a última opção ante a inevitável corrupção (Lee, em The Walking Dead: Season One) e as fugas do sofrimento, como Kratos em God Of War (embora este seja impedido por Athena).

Não quero nem ver a indexação do Google por conta do assunto…

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