
Drácula é um nome que evoca o mito do vampiro em sua essência: inteligente, sedutor e mortal!
Ele já foi Judas (Drácula 2000), também o conde que amaldiçoa Deus após retornar das cruzadas e encontrar sua esposa morta (Drácula, de Bram Stoker) e o Conde Orlok na versão expressionista alemã não-autorizada do título de Bram Stoker (Nosferatu) no cinema e até mesmo Caim em HQ’s e RPG’s, aquele que é amaldiçoado por Deus após matar seu irmão, Abel, e marcado para nunca poder morrer. Nos games, obviamente seu maior legado e representação está como vilão da série Castlevania, mas também na série point-and-click Dracula.

Embora a popularidade de Drácula tenha vindo do livro homônimo, do escritor irlandês Bram Stoker, onde o cavaleiro que amaldiçoa Deus é punido com a eternidade, pensando reencontrar a sua amada morta em Mina Harker (noiva de Jonathan Harker), a verdadeira história de Vlad Tepes é quase tão sombria quanto.

Vlad III nasceu em Sighisoara, Transilvânia (Romênia), em 7 de dezembro de 1431, filho de Vlad II Dracul, voivoda (governador/líder militar) da Valáquia e Eupráxia da Moldávia (embora hajam discussões sobre a mãe). Seu pai, Vlad II, ganhou o título de Dracul por pertencer à Ordem do Dragão, uma ordem de cavaleiros cristãos que lutaram especialmente contra a expansão do Império Otomano; Vlad III receberia a alcunha Drácula por ser “filho do Dragão” (Vlad II).
Em 1436, Vlad Dracul torna-se governante da Valáquia. Em 1442, Drácula e seu irmão mais novo, Radu (III, o Belo) foram mantidos reféns pelo Império Otomano, para assegurar a lealdade de Dracul.

Em 1447, a Valáquia é invadida pelo governador-regente da Hungria, Hunyadi János (João Corvino, o Cavaleiro Branco), sendo Dracul e Mircea (o filho mais velho) mortos durante o ataque.
Corvino colocou Ladislau II (Vladislav II), primo de Drácula, como voivoda da Valáquia. No outono de 1448, enquanto Corvino e Ladislau lançaram-se em campanha contra os otomanos, Drácula invade a Valáquia, aliado aos otomanos, mas Ladislau retorna e Vlad precisa se retirar para o Império Otomano.

Os laços de Ladislau com a Hungria são abalados, momento em que Vlad retorna para a Valáquia (1456), desta vez com ajuda húngara. Ele começa então a eliminar os boiardos (nobreza) da Valáquia, para consolidar seu poder e entra em conflito com os saxões da Transilvânia, que apoiavam Dan (o Jovem), Bassarabe III Laiota (o Velho) e seu meio-irmão bastardo, Vlad IV (o Monge). É neste período em que Vlad recebe a alcunha Tepes (Empalador), pelo seus métodos de tortura e assassinato praticados contra as vilas saxãs.
O empalamento é uma técnica brutal que consiste em colocar a parte de cima da armadura no corpo da vítima e soltá-la sobre uma estaca, diretamente no ânus. O peso da armadura faz o corpo descer lentamente e, quando a estaca penetra os intestinos, a vítima morre. Além do empalamento, Drácula costumava embeber pão em sangue de porco, enquanto andava entre os prisioneiros, causando a impressão de estar bebendo o sangue das vítimas, o que teria sido a principal inspiração para a lenda do Conde Drácula como vampiro; em contiguidade, Dracul, que era inicialmente Dragão, passou a ser Diabo, na linguagem romena, o que tornaria Drácula o filho do Diabo.

Esta “corrupção” do nobre cristão, embora ele seja considerado herói na Romênia, é, até certo ponto, condizente com a retratação no livro de Bram Stoker e nas obras concomitantes, mesmo quando sua origem é diferente. Vemos Richter Belmont ser corrompido em Castlevania: Symphony Of The Night (embora Drácula esteja presente apenas no final verdadeiro) e Gabriel Belmont tornar-se o próprio Drácula na cena pós-créditos de Castlevania: Lords Of Shadow.

Mas voltemos à história real!
O sultão Maomé II (Mehmed II) ordenou à Vlad que ele lhe prestasse homenagens, porém Drácula capturou e empalou os dois enviados. Em fevereiro de 1462, Vlad ataca o território otomano, massacrando dezenas de milhares de turcos e búlgaros muçulmanos. Em retaliação, Maomé II lança uma campanha contra a Valáquia, para destronar Vlad e colocar Radu, seu irmão mais novo, como voivoda.
Drácula tenta capturar o sultão em Targoviste (Romênia), mas ele consegue escapar com boa parte do exército; em contrapartida, os valáquios começam a desertar em grande número, apoiando Radu.
Ao partir para a Transilvânia, em 1462, após a derrota na tentativa de captura do sultão, Vlad busca o apoio de Matthias Corvinus, rei da Hungria, mas é encarcerado por ele.
Mantido prisioneiro em Visegrado (Hungria), entre 1463 a 1475, seus feitos cruéis e lendas começam a se espalhar pela Alemanha e Itália, dando origem à mística em volta do nome e de seus hábitos sanguinários.

Liberto em 1475, por Stefan III (Estevão III, o Grande da Moldávia), Vlad lutou novamente contra os otomanos, pelo exército de Corvino, na Bósnia, em 1476.
Húngaros e moldávios o ajudaram a forçar a fuga de Bassarabe da Valáquia, em novembro; porém, este retornaria antes do fim do ano, com suporte dos otomanos. Drácula foi morto em batalha, em 10 de janeiro de 1477 (ou dias antes).
Herói na Romênia, vilão nos reinos adjacentes, Drácula é uma figura ímpar na História, seja pela selvageria, brutalidade ou perseverança.
Coloca-se ao lado de outras figuras complexas, como Oda Nobunaga, Napoleão Bonaparte e Gengis Khan, personagens cujos feitos controversos compõem o rol de anti-heróis/vilões históricos, cujas vidas permanecem relembradas entre as gerações.

