Crítica Ou Opinião?

Recentemente, uma discussão que assisti me levou a questionar algo mais profundamente.
Se existe crítico literário, crítico de cinema e de praticamente todas as outras formas de arte, existe crítico de games?

A resposta é, na verdade, bem simples.
Não, não existe crítico de games, apenas reviewers/analistas.
O porquê disso já é mais complexo!

Ranton e suas “críticas especializadas”

Ok, aqui isso entra um pouco de semântica
Quem analisa um jogo, está criticando o mesmo? Tecnicamente, sim, ou melhor, TEORICAMENTE, sim.

Um crítico, como pensamos quando falamos sobre um crítico de cinema, por exemplo, não é alguém que simplesmente tece uma opinião sobre determinado filme.
Um crítico de cinema é, em geral, alguém que estudou Cinema ou História do Cinema na faculdade. 

A questão principal do crítico é que ele segue padrões e analisa aspectos técnicos da obra, algo que um mero espectador não perceberia. Ao menos na teoria.

Uma crítica geralmente extrai mais do que o óbvio, citando significados ocultos e intenções por trás de certas cenas e acontecimentos da obra

Alguém que assista muitos filmes pode desenvolver algum senso crítico os mesmos, ainda que faltem elementos a serem analisados.
Ou seja, alguém sem formação de Cinema pode fazer uma crítica ao filme, mas esta crítica encaixa-se mais na categoria de opinião.

Mas e para os jogos?
Bem, começamos com o problema de que não existe um curso completo sobre jogos.
Existem várias formações, geralmente focadas em programação e outras aspectos e, ainda que existam cursos que se propõem a ensinar sobre diversas áreas dos jogos, eles conseguem abranger todos os aspectos???

E o embasamento teórico, ó!

Por isso eu e os demais membros do site, enquanto analistas/reviewrs de jogos, baseamos nossa opinião em experiência ao longo dos anos jogando videogames.
Estas análises, entretanto, não pode ser consideradas críticas profissionais; da mesma forma, mesmo jornalistas formados, quando analisam jogos, estão tecendo opiniões sobre os mesmos.

Ainda que a faculdade de jornalismo os “aparate” com uma escrita mais concisa e melhor estruturada, ela não ensina a analisar jogos.
E isso pode ser visto em muitas análise/reviews de alguns veículos grandeso texto muito bem escrito, mas qualquer um que tenha jogado o mesmo jogo percebe onde estão as falhas na descrição da experiência em si.

Outro ponto que causa uma certa confusão é o fato de que jogos eletrônicos são uma forma de arte que é mais produto do que obra artística, propriamente dita.
Explico: enquanto em um filme, o espectador é passivo, absorvendo o que o diretor e os atores formaram como um bloco sólido, imutável, nos jogos o público é parte integrante e ativa da experiência, interagindo/”manipulando” a obra em si.

Um filme não pode ser alterado (ainda), apenas ter versões diferentes

Um filme não muda ao ser lançado, o que muda é a experiência de cada um que o assiste e vai processá-la mentalmente baseado em suas experiências de vida, dogmas, moralidade, etc.
Mas aquele filme é imutável; se o estúdio e/ou diretor decidir acrescentar ou remover cenas, este será um novo filme, não o original.

O mesmo se dá com livros, quadros e esculturas, por exemplo.
Todos são obras de arte imutáveis, passivas em sua essência, ainda que livros estimulem a imaginação e os personagens e cenários possam ser imaginados de maneira diferente por cada leitor, a escrita ainda é a mesma.

Nos jogos, por outro lado, não apenas quem os consome interfere diretamente com a obra, como ela pode ser modificada através de patches de correção, alterada com DLC’s e até influenciada com o uso da internet. 

Depois de vários DLC’s e inclusão de cutscenes via atualização, Final Fantasy XV tornou-se um jogo completamente diferente daquele lançado originalmente

Isto não acontecia no passado, é claro; quando os jogos eram lançados em cartuchos e até mesmo no uso dos CD’s e começo dos DVD’s, um jogo era imutável (com relação ao seu conteúdo de programação), só era possível lançar uma versão modificada. Daí a quantidade de versões diferentes de Street Fighter 2.

Os jogos são imutáveis para os jogadores, enquanto os desenvolvedores podem alterá-los.
Porém, ao jogar um título do começo ao fim, o jogador ativamente interfere na obra, mesmo que dentro das limitações onde isso é possível. O jogador não altera o código de programação do jogo, mas ele toma decisões que afetam os elementos maleáveis do jogo.
Ok, speedrunners “alteram a programação”, temporariamente, através de inputs, mas esse é uma exceção bem específica…

Teria um evento cósmico afetado o lendário speedrun de Mario 64?

Outros fatores podem interferir neste processo, como velocidade de internet (especialmente em jogos multiplayer ou que tenham conexão constante), bugs e erros aleatórios, além da natureza. É, a natureza, como aconteceu com um speedrunner de Mario 64 que, teoricamente, teve seu console acertado por um raio cósmico, causando um glitch que nunca pode ser reprisado, batendo um recorde impossível. Ainda que isto seja mais uma teoria e um evento estatisticamente quase nulo, é uma prova da natureza inconstante dos jogos eletrônicos.

Dados todos estes fatores, fica evidente que uma crítica precisa se torna impossível no campo dos games.
Ainda que se estude a teoria, os fundamentos, isto não irá gerar uma crítica mais profissional.
No fim das contas, sendo pago, patrocinado, apenas recebendo os códigos dos jogos ou mesmo comprando e analisando por conta própria, análises e reviews de jogos não contam como crítica especializada, são apenas opiniões baseadas em experiência e senso comum. E por isto mesmo são tão variadas e divisivas, cabendo ao leitor/espectador escolher com quem concorda mais e quem aborda os pontos que mais combinam com seu gosto.

2 comentários sobre “Crítica Ou Opinião?

  1. Entendo o ponto sobre a impossibilidade de imparcialidade, mas acho que isso não invalida a crítica como muita gente assume.
    Um jogo pode, sim, ser analisado em camadas específicas, do mesmo jeito que um filme é analisado por fotografia, trilha, montagem, direção. Em videogame você tem design, level design, áudio, performance, arte, narrativa. Cada área permite uma leitura mais objetiva quando quem está analisando entende do assunto.
    Um músico ou designer de som falando sobre o trabalho do David Wise não está só “dando opinião”, está fazendo uma análise baseada em repertório e técnica. O mesmo vale pras outras áreas.
    No fim, o problema não é a impossibilidade de imparcialidade, é a falta de profundidade de quem analisa. Quando não há domínio, tudo vira opinião. Quando há, vira crítica.
    E videogame está passando exatamente pelo que o cinema passou lá atrás, inclusive essa resistência em tratar como arte. A gente só está repetindo o ciclo.

    1. Mãe, corre aqui que tem uma celebridade do Youtube no meu post! Bom canal, aliás, sou inscrito.

      Agora falando sério, sim, um jogo pode ser criticado em pontos específicos. Especialmente os jogos antigos, até os 16 bits, até podem ser mais criticados como um todo, mas a partir da geração 32/64 em diante, eles se tornaram mais complexos e abertos à transformação.
      Em parte, o post (que era maior, mas tive de dar limada) é um pouco sobre a semântica da coisa, uma vez que a diferença da crítica pra análise não é algo tão bem determinado.
      Eu tive a ideia justamente vendo um vídeo sobre críticas em geral (um corte do QnS) e a parte estética da coisa que, teoricamente, poderia ser criticada também nos jogos.
      Porém, acho que a natureza inconstante e efêmera dos jogos atuais, com as modificações via atualizações, dificultam a crítica mais completa. Ainda é possível “criticar” o núcleo do jogo, mas os diferentes aspectos vão sendo, muitas vezes, transformados ao longo da existência de cauda longa, como o recente caso do Resident Evil Requiem que teve uma opção de ray tracing removida em alguns trechos do PS5 Pro.
      Dito isso, não vejo algum crítico de jogos propriamente dito, entre os analistas/reviwers.

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