
Todos os anos o governo da Oceania publicava uma nova versão do dicionário da Novilíngua, onde uma série de palavras era banida, reduzindo continuamente o idioma.
O governo totalitário do Grande Irmão, em 1984, utilizava a supressão de palavras, bem como a manipulação e inversão de significados para controlar a população.

Um tema central da obra de George Orwell, a ditadura imposta pelo estado da Oceania, ora inimigo, ora aliado, dos estados da Eurásia e Lestásia, controlava até mesmo o pensamento dos cidadãos.
A TeleTela, uma televisão que passava conteúdo do governo e também espionava os cidadãos, vigiava-os até mesmo durante o sono, filmando e ouvindo todos, detectando palavras que pudessem indicar um rebelde.
Uma ditadura é um conceito amplamente conhecido no mundo, independente de lados partidários, existindo tanto na Extrema Direita, de António de Oliveira Salazar (Portugal), Francisco Franco (Espanha), Militar (Brasil) e Benito Mussolini (Itália), entre outros; quanto na Extrema Esquerda, de Stálin (União Soviética), família Kim (Coreia do Norte), Mao Tsé-Tung (China) e Nicolás Maduro (Venezuela), entre outros.

Uma ditadura controla com mão de ferro o Estado, eliminando a concorrência e controlando os cidadãos através da propaganda e da desinformação, seja com músicas que enaltecem o Exército e a Pátria, como na Ditadura Militar do Brasil ou no Realismo Socialista, da União Soviética. Àqueles a quem a lavagem cerebral não funcionou, restam a tortura, seja nos porões do DOI-CODI ou nos Gulags.

Posto tudo isto, a censura à qual quero referir-me aqui é mais leve, embora não menos importante: o Steam.
Sim, a loja de Gabe Newell, tão adorada e idolatrada pelos jogadores de PC, famosa pelas práticas amigáveis de preço e reembolso, mas que no ano de 2025 vem exercendo censura sobre uma série de jogos.
Há de ficar claro que, embora o Steam tenha banido uma série de jogos por conteúdo “pornográfico”, esta censura é resposta à pressão de sistemas de crédito, como Visa, Mastercard e PayPal.

Os meios de pagamento, por sua vez, aderiram à uma campanha de censura perpetrada pelo grupo ativista australiano Collective Shout. Liderado por Melinda Tankard Reist, ativista política conversadora, o grupo se descreve como “um movimento de base contra a objetificação das mulheres e a sexualização das meninas na mídia, na publicidade e na cultura popular”, embora seja muitas vezes visto como uma cruzada antipornografia.

Embora a descrição do grupo pareça, à primeira vista, bem intencionada, suas ações contradizem o discurso, seja pela liberdade artística e censura financeira. Há também questões relacionadas aos direitos LGBTQIA +, que também acabam por ser afetados em vários jogos.
Pressionados pelos sistemas de pagamento, tanto Steam quanto Itch.io removeram centenas de jogos considerados NSFW (Not Safe For Work).

A censura em jogos de videogame não é assunto novo, ela acontece desde o Mortal Kombat de Super Nintendo, jogo que inclusive resultou na criação do selo de classificação indicativa ESRB.
De lá para cá, diversos jogos (especialmente nos consoles) foram vítimas de censura, com modificações de sprites para adaptação de conteúdo em diferentes partes do mundo ou mesmo remoção de cenas consideradas ultrajantes, como a insinuação de estupro de Lara Croft, em Tomb Raider (2013).

Estas censuras, entretanto, tendem a afetar os jogos, sem que os mesmos sejam removidos e/ou banidos de plataformas, ainda que alguns países possam fazê-lo individualmente.
Entretanto, quando lojas começam a remover jogos, temos um problema muito maior, ultrapassando a barreira do aceitável e dos governos de países.
Como bem disse Yoko Taro, criador de Nier: “Isso significa que, ao controlar as companhias de processamento de pagamentos, você pode até mesmo censurar o direito à liberdade de expressão de outro país.”.

Mesmo que alguns dos jogos banidos no PC realmente tenham conteúdos duvidosos, cada caso deveria ser considerado individualmente, bem como ser aberto um canal de comunicação entre desenvolvedores, consumidores e órgãos governamentais.
O grupo considera que aqueles contra suas intenções com a censura/remoção dos jogos são apenas “jogadores pedófilos com o cérebro apodrecido pela pornografia”. Já dá pra notar que diálogo não é o forte do grupo…
Essa polêmica parece estar longe de acabar, levantando questões sobre os limites da liberdade de expressão, a preservação de conteúdo online e o controle de grupos ativistas (especialmente conservadores) sobre a vontade dos consumidores.
Afinal de contas, a partir de que momento uma simples censura pode se transformar em algo maior? Grupos políticos e/ou ativistas já resultaram em ditaduras no passado, será que permitiremos isso mais uma vez?
