Manhunt: Um Profundo Mergulho Niilista


Já faz algum tempo em que venho pensando em como abordar o conceito do niilismo nos jogos.
E essa é uma necessidade pois acredito que nós atualmente vivamos em uma era do niilismo puro, mesmo que muitas pessoas não se deem conta disto.

O niilismo é uma filosofia baseada no realismo radical e no entendimento de que a existência não possui um propósito (explicação a grosso modo e bem simplista, para facilitar).
E o que vivemos atualmente, ao menos pelo meu ponto de vista, é uma falta de esperança ou sentido para a vida.

Isto pode ser notado pelo crescimento de busca espiritual (de formas cada vez mais absurdas) e por uma perda de direção nos propósitos e sonhos para o futuro, especialmente entre as novas gerações.

Pandemia, guerra, atentados terroristas, volta do extremismo entre a população comum e outros traços são uma faceta da sociedade em decadência, o que, claro, pode ser apenas uma geração de transição, como aconteceu pós-Segunda Guerra Mundial.


E tenho notado cada vez mais esta falta de sentido nas artes, em especial filmes, séries e jogos.
O problema é que, embora possa ser possível notar tais traços, muitas vezes esta não é necessariamente a intenção do artista ou não é uma filosofia abraçada e/ou compreendida completamente.

Buscando algum jogo que realmente abraçasse esta ideia (intencionalmente ou não), relembrei um polêmico “clássico” do PlayStation 2: Manhunt.

A jornada do herói, descrita por Joseph Campbell em O Herói de Mil Faces, lista uma série de acontecimentos e/ou itens que englobam praticamente todas as histórias, fábulas e mitologias criadas.

Em algum nível, as obras tendem trilhar este caminho, mesmo quando um personagem maligno é escolhido, ele não se vê como o vilão, busca redenção ou foi incriminado injustamente e precisa provar sua inocência.
Mas isto não é o que acontece em Manhunt.


James Earl Cash, o protagonista do primeiro título, é condenado à pena de morte, por assassinatos prévios.
A injeção letal que ele recebe, no entanto, foi forjada para simular sua morte, sendo que uma segunda chance lhe é oferecida, desde que aceite participar de uma série de filmes snuff (produções que mostrariam mortes reais, comercializadas no mercado negro).

Cash aceita o desafio e é solto em uma parte isolada de Carcer City, onde apenas gangues de assassinos, psicopatas e pacientes de instituições mentais estão à solta.
O objetivo é matar todos estes sujeitos das formas mais brutais e cruéis possíveis, para o deleite daqueles que assistirão às filmagens.

Contrario a outros protagonistas “maus” de jogos, mesmo os da própria Rockstar, Cash não demonstra remorso pelas mortes que executa, tampouco pelas que o condenaram ao corredor da morte (não, ele não foi injustiçado, ele realmente executou aquelas pessoas).
A única motivação para Cash avançar é descobrir quem está por trás das filmagens e da voz que lhe incentiva, a qual chama-se apenas de O Diretor.

Não há arco de redenção aqui, embora uma jornalista que investigue o caso peça ajuda a Cash para expor as filmagens.
Cash é essencialmente um personagem mau, que em nenhum momento contesta as inúmeras mortes que está executando com as mais variadas armas (de sacos plásticos a martelos, passando por tesouras, pedaços de vidro, tacos de baseball e armas de fogo).
Quanto mais violenta é a morte, mais o jogador é recompensado ao final de cada cenário, em sua avaliação.

Em parte semelhante ao protagonista de O Estrangeiro, de Albert Camus, as mortes não possuem um real sentido, sendo apenas executadas por um indivíduo sem objetivos.
No livro de Camus, no entanto, a morte que Meursault executa por um impulso apático diferente de Cash apenas no sentido de que o protagonista do livro não era um bandido.

Mas ambos são personagens sem grandes objetivos ou interesses, perdidos em um mundo sem sentido, onde a realidade crua de uma sociedade decadente vende sonhos vazios para indivíduos mortos por dentro que, ao contrário dos protagonistas citados, apenas não se deram conta disto e continuam a viver vidas superficiais, acreditando seguir uma lógica social e moral comuns, como hamsters correndo em uma eterna roda…