Musashi, O Mito do Guerreiro Solitário

Miyamoto Musashi é considerado o maior samurai de todos os tempos.
Diferente de outros guerreiros, no entanto, ele não teve grande participação em eventos históricos.

É claro que o fato de ter criado um estilo próprio de combate, o Nitten Ichiryu de Duas Espadas, e escrito dois livros, O Livro dos Cinco Anéis (Go Rin No Sho) sobre estratégias de combate, e o Dokkodo (O Caminho da Solidão) uma obra mais reflexiva sobre a vida contribuíram para sua fama.

Musashi não foi um grande general ou senhor feudal, sequer esteve do lado vitorioso na batalha de Sekigahara.
Porém, ficou famoso como um ronin, um samurai sem senhor.
Mas o que teria motivado sua fama, influenciando grande parte da cultura japonesa?

Como muitas grandes figuras históricas, a vida de Musashi é repleta de lacunas, períodos onde não se sabe o que fez ou onde estava.
E são justamente estas lacunas que permitiram interpretações criativas sobre sua personalidade e hábitos.

Para entendermos melhor este fenômeno, precisamos prestar atenção ao folhetim sobre a vida do samurai, publicado pelo autor Eiji Yoshikawa, no jornal Asahi Shimbun, entre 1935 e 1939.
Mais tarde agrupado e publicado como livro, Musashi é a versão romanceada sobre a vida do samurai, partindo do pós-Sekigahara até o duelo contra Sasaki Kojiro.

O jovem Shinmen Takezo é apresentado como um guerreiro bruto e inconsequente, que partiu para a guerra junto de seu amigo de infância, Matahachi.
Após separarem-se, Takezo retorna para seu vilarejo, ainda como fugitivo do lado derrotado (Toyotomi).

Acusado pela mãe de Matahachi (Osugi) de ter deixado o filho morrer em batalha, Takezo esconde-se nas montanhas, até ser capturado pelo monge Shuho Takuan, não pela força, mas pela estratégia.
Pendurado em uma árvore para ali morrer, é libertado pela ex-noiva de Matahachi, Otsu, que havia recebido uma carta do jovem, relatando sua união com a viúva Okoo.

Após a fuga, os jovens separam-se e Takezo é novamente capturado por Takuan, sendo desta vez preso na torre de um castelo, repleta de livros.
Shinmen Takezo sai de lá transformado pela leitura e pelo novo entendimento da vida e é rebatizado Miyamoto Musashi, decidido a aperfeiçoar suas habilidades marciais.

Seus feitos enfrentando o clã Yoshioka e o duelo contra seu maior rival, Sasaki Kojiro, na ilha de Ganryujima, além dos diversos encontros e desencontros entre os personagens fictícios e reais do livro inspiraram o ideal do guerreiro solitário, focado na busca pelo aperfeiçoamento.

Inúmeras inspirações partiram daí, inclusive nos games, mas sem sombra de dúvida o personagem que mais bebe desta fonte é Ryu, de Street Fighter.
Um jovem dedicado ao caminho do karate Shotokan, Ryu é sempre retratado como um guerreiro solitário, que viaja pelo mundo em busca de oponentes mais fortes, assemelhando-se ao que Musashi faz na obra homônima.

Este idealístico guerreiro solitário, puro em suas intenções e extremamente forte, permeia todo o imaginário japonês.
A figura do lobo solitário possui forte inspiração na narrativa descrita por Yoshikawa, mesclando-se com os ensinamentos budistas do abandono pelo desejo.

Assim como Musashi inicialmente rejeita Otsu, por entender que o amor o desviaria da sua busca pelo aperfeiçoamento marcial, também Buda rejeita inicialmente as mulheres por entender que o desejo sexual atrapalharia a busca pelo Nirvana.
Embora não tão desenvolvido neste sentido, Ryu é também retratado como um guerreiro tímido e solitário, inocente quanto ao sexo oposto, da mesma forma que Musashi no início de sua peregrinação.

Desta forma, Eiji Yoshikawa, através de sua versão romanceada sobre a vida de Miyamoto Musashi, criou o protótipo do peregrino guerreiro, o Lobo Solitário, puro de coração e buscando a perfeição através do combate e da iluminação budista/xintoísta.
Ideal japonês que inspirou inúmeras obras e personagens, Miyamoto Musashi segue como o exemplo de retidão de caráter e fortitude mental que guiam a Terra do Sol Nascente.