A Implacável Regra dos 15 Anos

“- Escolha a pílula azul e você acorda em sua cama, acreditando que tudo era melhor no passado. Escolha a pílula vermelha e vamos revisitar os clássicos que você gostava com os olhos atuais.”
O jogador foi ávido, com sua mão em direção à pílula vermelha.
“- Lembre-se que eu ofereço a verdade, e apenas a verdade.”

Eu já falei nessa coluna sobre a Regra dos 15 Anos.
Embora seja uma brincadeira, a regra é clara: aquilo que consumimos antes dos 15 anos deve ser revisitado com cuidado, pois nossos gostos mudam com a idade.

A regra fala dos 15 anos como uma referência de transição para a vida adulta (embora aconteça só alguns anos depois).
Apesar da adolescência tardia ser uma realidade atualmente, é por volta dos 15/17 anos que nossos gostos “evoluem”. E quando cito evolução, falo no sentido de um certo aprimoramento no senso crítico.

Na infância e adolescência, tendemos a julgar menos aquilo que consumimos em termos de cultura pop.
Livros, filmes, séries, jogos e música: tudo está suscetível à impiedosa regra dos 15 anos.

É claro, isto não quer dizer que tudo antes deste limiar seja ruim: somos expostos a diferentes materiais e alguns deles permanecem bons mesmo quando revisitados.
Mas para julgar isto, é necessário atravessar o véu da nostalgia, e este é um campo complicado e controverso.

Cresci assistindo os filmes do Van Damme nos saudosos VHS da Top Tape.
Na infância, qualquer filme de artes marciais era ótimo, mas o que acontece quando revemos estes “clássicos” atualmente?.

E foi assim que, com saudade daqueles velhos filmes, fui atrás deles recentemente.
Com exceção de “O Grande Dragão Branco”, que se salva, apesar de algumas partes vergonhosas, que grande erro eu cometi.


A Regra dos 15 Anos me acertou em cheio quando assisti Kickboxer.
Um filme que eu gostava tanto na infância, mas que revendo atualmente tem muitos problemas de ritmo, partes esdrúxulas e um vilão que parece amedrontador, mas só ganha do protagonista sob coação.


Algo semelhante aconteceu quando fui revisitar “Loucademia de Polícia”, uma comédia que eu lembrava com grande nostalgia… e envelheceu MUITO mal.
Que fique claro, a Regra dos 15 Anos não se aplica apenas ao nosso gosto, mas também ao senso comum de sua época.

Algumas obras que funcionavam na época de seu lançamento, tornaram-se obsoletas.
Isto aplica-se especialmente quando falamos de jogos.

Neste campo, os jogos 2D possuem larga vantagem, não apenas pelo gráfico que não envelhece, como por mecânicas mais simples de gameplay.
O problema começa quando revisitamos antigos títulos 3D.

Quando a PlayStation Plus ofereceu a trilogia original de Resident Evil, achei que finalmente resolveria minha “pendência” com a franquia, uma vez que meu primeiro contato com a série foi em Outbreak (um spin off) e depois com RE4.

O problema é que, por nunca ter jogado os RE antigos, eu estava indo com uma visão mais atualizada da série para o começo de tudo, e aí eu me depararia com mecânicas já saturadas e limitações de hardware que já haviam sido resolvidas.

REcentemente eu fiz as pazes com o primeiro título, jogando o remaster.
Ainda há problemas: uma chave ocupar o mesmo espaço no inventário que um lança-granadas faz absolutamente zero sentido, mas está lá, mantendo um problema da época.
O material original, no entanto, é muito bom em sua essência e consegui finalizar o jogo com um modelo mais atualizado.

Esta é uma vantagem que os games possuem sobre a Regra dos 15 Anos: é possível revisitar versões refeitas de clássicos, sem se preocupar com atores diferentes nos filmes, por exemplo.