A Glorificação do Sofrimento

Recentemente fiz um review sobre o jogo Submerged Hidden Depths (que você pode ler aqui) e o que mais me surpreendeu foi a ausência de combate no jogo.
Não que isto seja uma novidade, mas afora estilos onde não hajam conflitos, incluindo aí os walking simulators, o enfrentamento costuma ser aquilo que define a maioria dos jogos.

Trilhamos nosso caminho sobre pilhas de corpos, massacrando aqueles que se opõem aos nossos avatares virtuais.
Conquistamos um lugar de honra e glória (em uma realidade paralela, apenas dentro da TV e do monitor) através de muito esforço.

Um esforço efêmero e vão, que fique bem claro, uma vez que, assim que encerramos o jogo, voltamos às nossas vidas mortais (e reais).
Pagamos nossas contas, trabalhos, estudamos, somos pais, filhos, empregados e patrões.
Estes esforços da vida real, estes sim, são duradouros e nos trazem a recompensa após nossa árdua jornada (ou será que não?).

Mas se todo este esforço virtual é improdutivo no mundo real, por que continuamos a empreendê-lo?
E, ainda mais importante, se jogar é um hobby que deveria nos trazer relaxamento e descanso, por que acabamos muitas vezes estressados?

Algumas questões devem ser consideradas para tentarmos responder às perguntas anteriores.
Há meritocracia nos video games? Se sim, de onde ela vem?

Meritocracia, sim, eu vou usar este termo aqui.
Muito se discute sobre a meritocracia no mundo real, sobre conquistas através de seu próprio esforço, ou seja, conquistar através do mérito.

A meritocracia é polêmica e envolve uma série de argumentos multifatoriais, mas vamos aqui nos ater à “meritocracia virtual”
Há mérito em nossas conquistas nos games? Caso positivo, a que ela se deve?

Se alguém cresceu jogando títulos de plataforma, o mérito desta pessoa por jogar bem os novos lançamentos do gênero é maior dado seu histórico de esforços no estilo? Ou aquele que não possui tal habilidade e consegue atingir o mesmo patamar possui mais mérito, uma vez que teve de aprender tudo de uma vez?

É importante também que entendamos de onde surgiu esta necessidade de superação nos jogos.
Grande parte da cultura dos video games vem no Japão.
Na terra do Sol Nascente, o bushido ainda domina a mente da sociedade.

O bushido (caminho do guerreiro) é rígido e contundente.
O bushido “premia” com a vitória aquele que se esforça e treina constantemente, aquele que busca sempre o aperfeiçoamento da técnica.

O bushido é brutal em essência e parte desta brutalidade continuou com a cultura nipônica.
Estamos falando de um país onde a falha é tão vergonhosa que pode levar ao suicídio por desonra.
Nada mais natural que tal atitude influenciasse a cultura produzida no país, incluindo os video games.

Atinja a melhor nota possível!
Tirou um A? Agora consiga o S, de Special… e evolua até obter o SSS!

Não sofra dano, finalize o jogo sem morrer, esquive perfeitamente, bata o recorde dos desenvolvedores!!!

No final das contas, uma atividade que deveria nos relaxar, acaba por gerar mais stress.
Desviamos a mente de nossos problemas no mundo real, é verdade, mas focamos em problemas virtuais.
E quando você desliga o jogo e volta à sua vida, bem, os seus problemas reais continuam lá…