Review / Tutorial de Ikai

* Esta análise foi feita com o código cedido pela PM Studios (PS4/PS5)

Distribuidora: PM Studios
Produtora: Endflame
Plataforma:  PS4 / PS5 / Switch / PC
Mídia: Física e Digital
Ano de Lançamento: 2022

Ikai é um jogo de terror e stealth em primeira pessoa, baseado no folclore japonês.

YOKAI

Na cultura japonesa, os Yokais (ou Youkais) são entidades presentes por todo o folclore, especialmente no período medieval.
Ao contrário do pensamento ocidental (e também do Oriente Médio) onde as religiões monoteístas possuem um caráter maniqueísta, no Extremo Oriente, é comum a existência de criaturas “neutras”.

A Terra dos Dez Mil Yokai (A Procissão dos 100 Yokai), de Sumiyoshi Hirotsura

Há uma grande variedade de yokais no folclore japonês mas, embora em grande parte sejam retratados como figuras malignas, eles não são realmente os “demônios japoneses”, leitura comum no ocidente.
O Kappa, por exemplo, pode ser visto tanto como um ser que ataca pessoas próximas aos rios e lagos, quanto um protetor dos mesmos, dependendo da região do país.

O Kappa possui sua força na água, a abertura na parte superior do crânio permite que ele continue forte em terra (diz a lenda que para derrotá-lo, você precisa fazer uma reverência, que ele irá repetir, por educação, derramando a água que lhe dá forças)

É claro, figuras como os Oni, por exemplo, são malignas e agressivas, tendo formas grandes e semelhantes aos ogros ocidentais, carregando um grande tacape (o kanabo) com pontos de metal.
Os onis são responsáveis por torturar as almas ruins no “inferno”, mas podem escapar para a Terra, atacando pessoas em florestas e cavernas.

Estátuas de Onis em um templo xintoísta

Talismãs xintoístas, os Ofuda, serviam como selos de banimento ou exorcismo contra os yokai, purificando objetos ou locais. Feitos em papel, tecido, madeira ou metal, um ofuda contém o nome de um deus (kami) ou de alguma personalidade importante no budismo/xintoísmo.

Ofuda, os talismãs de proteção e purificação xintoístas

SANTUÁRIO ISOLADO

Naoko é uma jovem que mora em um santuário afastado, no meio de uma floresta, junto de seu tio, um monge xintoísta.
Sentindo a presença do mal, o monge pede que Naoko prepare alguns talismãs de proteção, enquanto parte para tentar purificar a floresta dos yokai.

Proteção nunca é demais!

Aqui você aprende a primeira mecânica do jogo: desenhar os kanjis no papel, para criar os ofuda.
Curiosamente, você controla o pincel com o analógico, realmente executando os traços com nanquim.
O jogo não pede 100% de acurácia, permitindo alguns desvios no símbolo, afinal de contas, não é tão fácil fazer movimentos precisos com o controle.

A mecânica de movimento é presente em todo o jogo, tanto para criar novos ofuda (que serão importantíssimos em pontos-chave), quanto para abrir armários, gavetas e “portas” de correr (fusuma).

ESGUEIRAR-SE PARA SOBREVIVER

Não há combate em Ikai.
Naoko é totalmente indefesa contra ataques, então o stealth e o conhecimento dos cenários é essencial para sobreviver aos ataques de yokai.

Aquela tela de loading pra já deixar o jogador nervoso…

Embora não seja mostrado, a jovem provavelmente usa tamancos de madeira (geta) e acredite, eles fazem MUITO barulho na madeira, portanto caminhar agachado é a melhor solução em muitos momentos. É claro, quando você não é obrigado a fugir correndo.

Ok, eu acho que me perdi!

O jogo consiste em utilizar um ofuda para “exorcizar” cada um dos yokais principais, para isto sendo necessário descobrir o objeto ao qual ele está ligado e criar um ofuda específico (um kanji diferente para cada yokai).
A criação do ofuda, no entanto, só pode ser feita em algumas mesas e, além da iluminação necessária e da tinta, é preciso ficar atento aos sons, já que um tipo de yokai pode atacar enquanto você escreve o kanji.

SOLIDÃO

Ao varrer o templo você é tomada por uma lembrança de brincar com a irmã na infância, tentando achá-la enquanto está vendada.
Aqui é preciso guiar-se “pelo som“: o cenário fica completamente escuro e apenas objetos próximos e o som de sua irmã geram imagens coloridas, representando a percepção de ruído de Naoko.

O “modo auditivo” de Naoko

Após a saída do tio, Naoko resolve ir até o rio para lavar roupa, precisando antes abrir o portão do templo, através de um puzzle de deslizar peças de madeira (semelhante ao Klotski). Parabéns para o arquiteto do templo, deve ser um antepassado do cara que desenvolveu a delegacia de Resident Evil…

Criatividade do arquiteto

Uma vez na floresta, é preciso achar o caminho até o rio. A protagonista revela os objetivos em pequenos monólogos, uma vez que ela está sozinha na maior parte do jogo.
Após avançar seguindo as dicas de Naoko, você encontra um local com uma adaga e uma vasilha sobre um pano, o que aparenta ser o local de algum sacrifício e/ou suicídio ritual em frente à uma árvore sem folhas; Naoko apaga.

PRESENÇA SOBRENATURAL

Ao acordar do desmaio, Naoko encontra-se em frente ao local do ritual, agora à noite.
Sangue verte da árvore e enche a vasilha.

Cochilar na floresta pode não ser uma boa ideia…

Assustada, ela resolve voltar para o santuário e aqui se iniciarão os encontros com yokais.
O Tsurube Otoshi é provavelmente o primeiro que você verá: uma cabeça gigante com chifres que cai do céu: embora inofensivo, o Tsurube sempre assusta pela aparição repentina.
Já o Nojubuki é um fogo que surge nos campos e pode feri-lo, caso não aprenda a mover-se no tempo correto para evitá-lo.

Nem todos os yokais possuem forma humanoide, o Nojubuki é um fogo espontâneo

Mas nem só de yokais vive a floresta: objetos perdidos e desenhos das criaturas espalham-se por todo o jogo, servindo como os coletáveis (além de cartas, que surgirão em estágio mais avançado).

Imagens dos yokais contextualizam o jogador sobre o folclore

PURIFICANDO OBJETOS E LOCAIS

Ao retornar ao santuário, você encontrará uma máscara de teatro Nô que começa a tremer e é corrompida por alguma energia: há um yokai na sua caça.

Alguém esqueceu uma máscara AMALDIÇOADA na gaveta do santuário

É necessário achar uma mesa para criar um ofuda e só então retornar à máscara, para purificá-la e banir o yokai da região.
Este será o padrão do jogo: descubra ao quê o yokai está atrelado, crie o talismã e purifique-o.

Um ofuda selando a porta com diversas correntes

Claro, não é apenas isso, é necessário primeiro descobrir onde está o objeto, baseado em sua dedução e nas pistas de Naoko.

Encontrar um Nozuchi em uma caverna não é exatamente um sinal de sorte

O Nozuchi, a “serpente peluda” irá persegui-lo no santuário: é necessário esconder-se e despistá-lo, até conseguir criar um ofuda para selar uma porta e impedir sua entrada. Ainda é preciso descobrir ao que o Nozuchi está ligado para criar o ofuda que irá bani-lo.
A partir de então, a trama, que parecia vaga, começa a tomar forma e as coisas ficam mais interessantes.

TERROR FEUDAL

O gráfico de Ikai é simples, mas funcional.
Enquanto os cenários são bem construídos e alguns objetos podem ser manipulados e observados por diversos ângulos, os yokais em si possuem modelos mais modestos, com modelagem não tão bem acabada.

Alguns objetos servem como coletáveis

A natureza do jogo e sua atmosfera, no entanto, compensam essa questão gráfica.
Aliás, o grande trunfo do jogo é justamente sua atmosfera, com uma personagem indefesa precisando evitar as criaturas da noite.

Um santuário pacífico durante o dia…
… se transforma em um lugar sombrio durante a noite

Os cenários variam entre as construções do santuário, a floresta, uma caverna e alguns outros locais (ou outra dimensão?).
O uso de contraste entre luz e sombra cria um excelente clima de tensão contínua, enquanto você tenta evitar os sustos, com monstros saltando na câmera em tela cheia.

Tem mesmo de passar por esse corredor?

O título não possui trilha sonora, focando-se apenas no som ambiente, o que garante mais tensão ao jogador.
Como recebemos o título antecipadamente, ao jogar o idioma japonês não estava funcionando (o que foi corrigido com patch após lançamento). A dublagem em inglês, na qual joguei, está com o som bem abafado; já a dublagem japonesa, que testei após o patch de correção, possui qualidade melhor de áudio.

PLATINA PURIFICADA

Platinar Ikai não é uma tarefa difícil… dependendo da sua coragem!

A maior parte dos troféus consiste em achar os coletáveis (cartas, objetos e desenho de yokais) e executar os rituais de purificação dos monstros.
Alguns troféus podem ser perdidos, como achar a irmã em menos de 1 minuto (enquanto vendada), escapar da floresta sem ser encontrado, não ser queimado pelo fogo do Nojubuki, etc.

Quem nunca desceu por um poço abandonado, no meio da madrugada?

O jogo não possui seleção de capítulos, precisando ser rejogado do começo ao fim, caso perca algum troféu.
Mas a duração é pequena, especialmente em uma segunda jogada, quando você já conhece os locais e sabe o que fazer.

RESUMO DA ÓPERA DO KABUKI:
Ikai é um jogo de terror baseado no folclore japonês, com focos nos yokais, que vai direto ao ponto.
Objetivos simples e mecânicas descomplicadas garantem uma aventura rápida, mas com uma experiência intensa no medo e ansiedade (aqui ansiedade como uma ferramenta útil para o horror).

“Só observo!”

O gráfico simples dos Yokais é compensando pelo elemento surpresa que apresentam, bem como os sustos ao saltar na tela, garantindo jump scares memoráveis. Após uma experiência inicial com o título na madrugada, tive que jogá-lo somente no início da noite, uma vez que os eventuais gritos de pavor não poderiam ser proferidos após o horário de silêncio.
Eu não costumo me assustar com facilidade, mas os saltos do Nozuchi quando eu errava uma fuga ou mesmo o pânico de tentar encontrar o shamisen correto enquanto a Mulher-Aranha (Jorogumo) avançava lentamente por uma varanda certamente me fariam acordar os vizinhos…

Aquela lá não é a Jorogumo?

Ela mesma…

O trabalho de dublagem em japonês está excelente e aclimata bem o título; já a dublagem em inglês, possui um estranho tom abafado.
O jogo dispensa a trilha sonora, focando apenas no som ambiente, o que ajuda tanto ao não distrair o jogador, quanto em deixá-lo nervoso.
A trama, que parece inexistente no começo, se desenrola em um plot twist interessante.

Não esqueça de acender as luminárias…

Uma experiência curta, porém intensa, Ikai utiliza bem os coletáveis para dar contexto aos monstros japoneses, pouco conhecidos no Ocidente.
Eu recomendaria jogar com fone de ouvido, mas não aos cardíacos.