Review / Tutorial de Kursk

* Esta análise foi feita com o código cedido pela Forever Entertainment (versão PS4/PS5)

Distribuidora: Forever Entertainment
Produtora: Jujubee / Storm Trident
Plataforma:  PS4 / PS5 / Xbox One / Xbox Series S / Xbox Series X / PC / linux / MacOS
Mídia: Digital
Ano de Lançamento: 2018 / 2021

Kursk é um jogo de espionagem em primeira pessoa, baseado no incidente do submarino nuclear russo de mesmo nome, que afundou em 12 de Agosto de 2000.

UMA RELÍQUIA PÓS-UNIÃO SOVIÉTICA

O submarino Kursk teve sua fabricação iniciada em Severodvinsk, em 1990, com o intuito de compor a Frota do Mar do Norte.
Pertencente à Marinha Russa, o Kursk foi um submarino de Classe Oscar II, medindo 154 metros de comprimento por 18 de altura (pesando aproximadamente 18 mil toneladas), tendo sido o maior submarino de ataque construído no mundo (até o surgimento da Classe Ohio nos EUA) e considerado indestrutível pelos marinheiros russos à época.

O Kursk ancorado, antes de sua partida fatal

Os submarinos Classes Oscar I e II (denominados pela marinha soviética “Project 949 Granit e Project 949A Antey”) possuem propulsão nuclear e capacidade de lançamento de mísseis cruzadores.

ESCONDIDO EM PLENA VISTA

Convidado a assistir os exercícios de teste do Kursk, você infiltra-se como um especialista em mísseis, com a missão de investigar um novo tipo de míssil: o Skhval, um torpedo de supercavitação capaz de atingir altas velocidades.

Briefing no hotel, antes de começar a missão

Como um espião americano, você deve investigar o K-141 Kursk por dentro, mesclando-se à tripulação e descobrindo os segredos por trás da tecnologia e intenções russas.

É possível realizar favores para membros da equipe durante a sua estadia, o que pode ajudar na hora de realizar certas tarefas ou mesmo influenciar o final do jogo.
Os favores vão desde conseguir o presente para um membro (Dimitri) que está de aniversário e fazer as pazes entre dois colegas de trabalho enquanto um deles acusa o outro de bullying.

PROFISSÃO PERIGO

Investigar um veículo submerso não é tarefa fácil: você está preso lá com seus possíveis algozes, sem possibilidade de fuga.

Mas não se preocupe, você conta com algumas ferramentas para ajudá-lo.
Um PDA é sua principal “arma”, contendo funções de hack, arrombamento e câmera.
Sim, câmera, o jogo se passa no ano 2000, a era pré-smartphone, quando celulares possuíam bem menos funções, inclusive ainda sem câmera.

Arrombamento de cofre à moda antiga: estetoscópio para ouvir os cliques

A ferramenta de arrombamento funciona com um pequeno dispositivo colocado na fechadura, operado através do PDA com calibragem para diferentes pressões nos pinos.

Quem precisa de gazuas quando você tem um arrombador eletrônico?

Já o sistema de hack para computadores detecta padrões de números e letras em segmentos, cabendo a você acertar a ordem de cada trecho do código. Conforme acerta trechos específicos, eles ficam em verde e não são mais embaralhados.

A ferramenta de hack decodifica códigos criptografados em pequenos segmentos

Por fim, a câmera é acoplada diretamente ao PDA, permitindo tirar fotos de documentos e mecanismos do Kursk.

A câmera acoplável no PDA; o mundo antes dos smartphones era bem diferente

É claro, há sempre o risco de ser pego enquanto executa tais ações, em especial o arrombamento de fechaduras, pela circulação de tripulantes nos corredores.
Eu tomei ALGUNS sustos nas vezes em que fui pego, pela voz grave em russo que o acusa.

Cartas de familiares podem ser encontradas nas cabines

Documentos encontrados revelam informações sobre o submarino e os mísseis, além de ordens para o capitão.
Cartas de parentes de alguns membros da tripulação também podem ser encontradas, além de relatórios sobre a política da época, citando as futuras eleições entre Bush e Al Gore, além do “surgimento” de Osama Bin Laden no Oriente Médio.

TRAGÉDIA EM ALTO MAR

A manhã de 12 de Agosto de 2000 seria fatal para o Kursk e sua tripulação.
Duas explosões, detectadas às 11h29 e 11h31 teriam sido responsáveis pelo afundamento do K-141 no Mar de Barents (situado ao Norte da Noruega e Rússia, faz parte do Oceano Glacial Ártico).

O Kursk pós-acidente: a abertura na frente era a proa, que explodiu

O incidente só foi noticiado no dia 14 de Agosto, tendo colocado o mundo em alerta, por medo de um novo desastre nuclear.
França, Alemanha, Grã-Bretanha, Israel, Itália, Noruega e EUA ofereceram ajuda, mas os russos temiam pelo vazamento de segredos militares e tecnológicos contidos no Kursk.

As vítimas do Kursk

Um desastre nuclear, no entanto, foi evitado pelos tripulantes dos compartimentos 5 e 5B, que lacraram tais locais após a segunda explosão. Os compartimentos possuíam revestimento de chumbo, criando um sarcófago que isolou os reatores, impedindo que eles explodissem pela temperatura que se elevou bruscamente, atingindo até 8.000º, segundo investigação posterior.

A tripulação de 118 homens, foi reduzida a 23 sobreviventes, que resistiram ainda por dois dias, tendo emitido sinais de socorro por 48 horas, no compartimento nº 9.
Negando a existência de sobreviventes, a Rússia aceitou ajuda de noruegueses e britânicos somente quatro dias após o acidente.

No dia 21 de Agosto de 2000, às 7h45, quatro mergulhadores noruegueses da empresa Stolt Comex Seaway conseguiram abrir a primeira escotilha, encontrando todos os compartimentos inundados e nenhum membro da tripulação vivo.

Trecho de uma das cartas encontradas no corpo de Dmitry Kolesnikov

Especula-se que a causa mais provável do acidente tenha sido a explosão da proa durante o lançamento de um torpedo. O jornal militar russo Krasnaia Zvezda afirma que o Krusk estaria abastecido com um novo tipo de combustível líquido, mais barato e de maior potencial combustivo.
Duas cartas foram encontradas no bolso do corpo do Capitão-Tenente Dmitry Kolesnikov.
O conteúdo de uma delas foi parcialmente divulgado, sendo o restante omitido por questões confidenciais; a outra, de cunho pessoal e familiar, não foi divulgada ao público.

Dmitry Kolesnikov forneceu pistas sobre os acontecimentos dos últimos sobreviventes graças às suas cartas

No trecho revelado, pode-se ler: “Está escuro aqui para escrever, mas vou tentar pelo tato. Parece que não há possibilidades, 10-20%. Vamos torcer para que pelo menos alguém leia isto. Cumprimentos a todos. Não há necessidade de ficarem desesperados.”

Recentemente, no entanto, o ex-comandante da Frota do Norte da Rússia, almirante Vyacheslav Popov, afirmou que o motivo do acidente foi a colisão com um submarino da OTAN, que acompanhava as manobras do Kursk.
Apesar da afirmativa, Popov não revelou mais detalhes por “não poder coletar as provas necessárias”.
A versão oficial continua sendo a explosão de combustível e posterior detonação do torpedo.

DISTRAÇÕES NO CONFINAMENTO


máquinas de arcade e minigames eletrônicos a bordo, além de um jogo de tabuleiro.
O PDA do personagem também conta com o jogo Snake (o clássico jogo da “cobrinha” nos celulares da época).

Quem não lembra desses minigames?
Nada como um arcade para relaxar…
… ou um jogo de tabuleiro com a tripulação.


Na área de treinamento, é possível entrar em uma competição pelo recorde da bicicleta ergométrica,
Neste minigame, R2 e L2 fazem as vezes de força e velocidade das pedaladas.

Bater recordes na bicicleta ergométrica: a vida num submarino pede por todo tipo de distração.

O LADO FEIO DE UM DESASTRE


Enquanto o título se sai muito bem em termos de estrutura narrativa e riqueza de detalhes em documentos e falas, o mesmo esmero não se pode esperar dos gráficos.

E nem tivemos o bug do milênio!

Embora o interior do Kursk seja rico em detalhes e consiga transmitir bem a sensação de claustrofobia de um submarino, os personagens possuem modelos sofríveis, com rostos sem expressão e olhos de “peixe morto”.
Não apenas a modelagem dos personagens como também as animações são muito mecânicas, causando um forte estranhamento.

Malhando na cabine para não perder tempo

A performance deixa a desejar em alguns momentos, com quedas bruscas de fps, além de loadings “longos” ao passar pelas escotilhas (que servem de pontos de ligação entre as diferentes áreas, semelhante às portas nos antigos Resident Evil).

A navegação pode se tornar confusa se você não prestar atenção

Já a dublagem se sai bem, com vozes em russo para toda a tripulação e em inglês para o protagonista.
As conversas possuem opções de diálogo que podem ou não determinar os rumos da conversa e das missões secundárias, além de influenciar no tipo de final obtido (entre os quatro disponíveis).

Eu tente ressuscitar esse cara algumas vezes, mas falhei miseravelmente

A trilha sonora possui clássicos da música erudita russa, bem como algumas bandas de rock (tocadas nos rádios).

PLATINANDO EM MEIO AO CAOS


A platina de Kursk não é necessariamente trabalhosa, embora envolva finalizar o jogo pelo menos duas vezes, para conseguir o nível mais baixo de confiança da tripulação (um dos finais pede isso) e o máximo de confiança.

Os sobreviventes tentam encontrar uma solução para o problema

Afora diversos troféus relacionados à trama, conseguir a melhor pontuação nos minigames disponíveis (um troféu para cada atividade), bater o recorde na bicicleta ergométrica, entrar em todas as salas do submarino, hackear três computadores e assistir os créditos por completo.

RESUMO DA ÓPERA:
Kursk é uma interessante aventura investigativa/documentário sobre o trágico evento do naufrágio do submarino homônimo.

Colocando o jogador no papel de um espião infiltrado, insere-se um elemento de tensão para a monotonia de um navio até que o acidente aconteça.
Enquanto o roteiro se sai bem com a narrativa fictícia mesclada à realidade, a parte técnica do jogo sofre de diversos problemas: seja framerate ou qualidade gráfica e de animações.

O primeiro grande título do estúdio polonês Jujubee, Kursk traz um importante relato da maior tragédia subaquática já ocorrida.
A falta de polimento acaba por tirar parte do brilho do jogo (isso foi um trocadilho incidental), que se destaca pelas qualidades narrativas.

Uma jornada curiosa e diferente, Kursk inova no formato, trazendo uma experiência documental, mesclada com a ficção.