Protagonismo Negro

Recentemente falei nessa coluna sobre a personagem negra do trailer de God Of War Ragnarok (e aqui me refiro sem utilizar o nome, para evitar o spoiler de quem ela é, embora já esteja espalhado pela internet).
Hoje, no entanto, o assunto é outro: o protagonismo de personagens negros na cultura pop.

Novamente fica aquele aviso sobre o uso do termo negro, pois aprendi assim quando pequeno e a não usar o termo preto para pessoas, embora atualmente isto seja contestado.

Personagens negros: outrora relegados a papéis secundários em filmes, quadrinhos e jogos, começaram a ganhar espaço com a expansão do mercado cultural.
Representatividade importa e aumenta a conexão do jogador com seu personagem.

O primeiro personagem principal negro que me lembro em um jogo foi Michael LeRoi, do jogo Shadowman, um estudante de literatura que se transformava no personagem título do jogo (e dos quadrinhos de mesmo nome).
Shadowman é um guerreiro vodu.

Ok, ok, estamos falando de 1999, mas até onde eu lembro, o jogo fugia de estereótipos com a etnia do personagem, comum em tantos outros jogos, provavelmente por já ser inspirado numa série de quadrinhos.

De lá para cá, no entanto, os personagens negros bem retratados nos jogos são exceções.
As representações em jogos japoneses geralmente são clichês ambulantes e mesmo títulos ocidentais colocavam-nos como personagens secundários ou alívio cômico (quando não vilão).

Talvez o passo mais importante nos games tenha sido Spider-Man Miles Morales, para o PS4 e PS5. Título focado exclusivamente no substituto de Peter Parker, o jogo acerta a mão na representatividade da comunidade não apenas negra, mas também latina.

De igual forma, Pantera Negra fez sucesso no cinema ao protagonizar um africano, com respeito à cultura do continente, ainda que sob um país fictício.

Mas o que faz destes personagens sucesso com o público?
Simples: sua etnia não é o foco do roteiro (bem, talvez um pouco mais em Pantera Negra).
Ambos os personagens são criados com a identidade negra e não transformados ao longo dos tempos.

Observe que, enquanto Pantera Negra é, em sua gênese, um personagem negro, Miles Morales é um outro Spider-man.
Aqui não foi cometido o erro clássico de simplesmente fazer quadrinhos onde Peter Parker é negro.

Miles Morales, ainda que discípulo do primeiro cabeça-de-teia, possui personalidade e estilo próprios.
De igual forma, assim o são Colt e Julianna, em Deathloop: personagens pensados primeiramente enquanto pessoas, depois como etnia.

O caminho para o respeito é, principalmente, trilhado não apenas por pessoas conscientes em outro grupo, mas também pela produção daqueles que fazem parte do grupo em questão.