Review / Tutorial de Paradise Lost

* Esta análise foi feita com o código cedido pela All in! Games (versão PS4/PS5)

Distribuidora: All in! Games
Produtora: PolyAmorous
Plataforma: PS4 / PS5 / Xbox One / Xbox Series X / Xbox Series S / Switch / PC
Mídia: Digital
Ano de Lançamento: 2021



Você é um menino explorando um bunker nazista aparentemente abandonado, com uma foto de sua mãe, procurando pelo homem que aparece ao lado dela.
Flashs de memória são alternados de momentos da vida do menino com a mãe, enquanto ele busca informações em escombros de uma sociedade ariana perdida.

A Ascensão Nazista  

Muitos se perguntam como Hitler e o partido nazista ganharam tanto poder com o povo alemão da época.
As pessoas não percebiam o que estava acontecendo? Como, afinal, a ideologia nazista conquistou o coração de uma nação e permitiu que tais horrores fossem deflagrados contra o povo judeu e as demais minorias alemãs?

A República de Weimar foi um conturbado período para a Alemanha…

Bem, existem vários fatores para isso.
Um deles é o momento financeiro do país após a Primeira Guerra Mundial.
A Alemanha estava completamente quebrada após o armistício e foi o país mais afetado pelas sanções do Tratado de Versalhes, perdendo uma parte de seu território e suas colônias no mar e no continente africano, tendo o número do exército reduzido e ficando obrigada a pagar indenização pelos prejuízos da guerra aos países da Tríplice Entente.
A recém-formada República de Weimar, que assumiu o país já praticamente no fim da Primeira Guerra, teve também de reconhecer a independência da Áustria.

… mas produziu o Expressionismo Alemão, movimento mais importante do cinema no país

Saindo de um regime imperial para um sistema semipresidencial, onde o presidente indicava um Chanceler (Reich) para o poder executivo e o Reich reportava-se ao Reichstag (Parlamento Alemão).
Após diversos problemas durante a sua existência, chegando ao ponto de desemprego com taxa de 44% em 1933, a República de Weimar seria destruída pelo Partido Nazista, que então assumiu completamente o poder, com Hitler como III Reich (e ditador).

O Misticismo Nazi e A Construção de Uma Mitologia Ariana  

Parte da explicação do porquê da crescente do partido nazista dentre os alemães explica-se também pela mitologia ariana criada.
Membros do alto escalão nazista, como Heinrich Himmler e Rudolf Hess possuíam grande interesse no ocultismo e na paranormalidade.

Henrich Himmler, talvez o mais assustador dos nazistas de alta cúpula e criador da Sociedade Ahnenerbe

Buscando justificar a suposta superioridade da “raça pura”, a propaganda nazista foi aliada a diversos mitos de origem mística como Atlântida, Thule (Escandinávia), Hyperborea (Grécia) e Shambhala (Tibete).

Em 1912, foi fundada a Germanenorden (Ordem dos Teutões), uma sociedade criada por místicos alemães antissemitas que tentavam provar a origem da raça ariana, tendo como membros Theodor Fritsch, Phillip Stauff e Hermann Pohl.
Pohl fundaria, em 1915, a Ordem Teutônica do Santo Graal, mostrando também uma relação entre nazismo e cristianismo nas crenças arianas originais (que seria desfeita ao passo que o nazismo caminhava em direção ao paganismo).

George Ivanovich Gurdjieff, místico mestre de Karl Haushofer


Para não me estender muito sobre as diversas ordens, cito brevemente: 
– Ariosofia, termo utilizado para descrever as teorias ocultistas e racistas da origem ariana;
– Armanismo, a doutrina de Guido von List, referência aos Armanem, os padres-reis na antiga nação Ário-Germânica, herdeiros do rei sol;
– Sociedade Vril, provavelmente fundada pelo general Karl Haushofer (discípulo do mestre espiritual armênio George Ivanovich Gurdjieff), procurava explorar a origem ariana e despertar as forças de Vril (a raça subterrânea do livro de ficção científica Vril: O Poder Da Raça Futura, do escritor inglês Edward Bulwer-Lytton);
– Sociedade Ahnenerbe, ramo místico da SS, criada por Heinrich Himmler, em 1935, teve envolvimento nas buscas por Atlântida e o Santo Graal.

Guido von List, criador do Armanismo

Houveram expedições em busca da nação Ariana de Hyperborea, percorrendo Tibete, Nepal, Grécia, Ártico e Antártida e as buscas por artefatos místicos como o Santo Graal e a Lança do Destino.
No entanto, crescia o paganismo na Alemanha Nazista, ao ponto que, em 30 de Julho de 1933, mais de cem mil nazistas teriam se reunido na cidade de Eisenach para restaurar o antigo panteão germânico (povos germânicos e nórdicos compartilhavam deuses), incluindo Odin, Baldur e Freia aos altares de adoração, sendo Wotan (nome germânico de Odin) substituto de Deus e Siegfried* o substituto de Cristo.
Tais atos acarretariam na ruptura total com as igrejas cristãs (católica e protestante) e a perseguição de cristãos a partir de 1938.

Siegfried em uma versão bem próxima ao Jesus europeu

*Siegfried (nome alemão de Sigurd na mitologia nórdica) é o herói mitológico que matou o dragão Fafnir e banhou-se em seu sangue, ficando imortal desde então, exceto por um de seus ombros, coberto por uma folha de árvore no momento e que seria seu único ponto fraco.

A Utopia Nazista
Szymon, é um menino polonês que adentra um bunker nazista em busca de um homem que aparece ao lado de sua mãe, em uma antiga foto.
Ao avançar mais, ele descobre um elevador de carga que o leva até uma sociedade ariana utópica, construída no subterrâneo.

Painéis de comando em alemão (como era de se esperar)

Numa realidade alternativa onde os EUA não entraram na guerra, a Segunda Guerra Mundial se expandiu até os anos 60, tendo os alemães descoberto a energia atômica, bombardeando boa parte do continente quando a ofensiva soviética ficou mais forte.

Para sobreviver à radiação, os nazistas criaram uma sociedade subterrânea completa

A sociedade subterrânea construída foi um projeto engendrado pelos nazistas para que o povo alemão pudesse se purificar em raça e retornar a superfície quando os efeitos da radiação houvessem passado.
Grupos de arianos selecionados com alto padrão de inteligência e habilidades, além de um grupo de outra raça que, embora não diretamente citado, fica subentendido como os poloneses.
Percebe-se pelos documentos que os nazistas selecionaram um grupo de mulheres não-alemãs para experimentos.

A natureza de tais experimentos é um grande spoiler, então aqui me abstenho de comentar o conteúdo para não arruinar a experiência do jogador.

Ewa e E.V.E.
A jornada solitária de Szymon é logo acompanhada pela voz de Ewa, mulher que o guia através de microfones e câmeras, para que ele chegue até a sala de comando onde ela foi presa.
Ewa não recorda a quanto tempo está lá dentro, mas parece entender bem os sistemas eletrônicos do local.

Em um mundo pós-apocalíptico com uma tecnologia retrofuturista, Szymon encontra terminais onde acessa registros e relatos narrados por um grupo de poloneses que conseguiu se rebelar contra os nazistas.

Terminais de controle contam a história da rebelião

O cientista Lucjan consegue tomar controle de E.V.E., a inteligência artificial criada pelos nazistas para controlar a sociedade subterrânea, tanto em aspectos tecnológicos quanto climáticos (até mesmo praias foram criadas no subterrâneo).

Dominika, líder da resistência polonesa, logo entra em conflito com Lucjan devido a algumas de suas ideias (spoiler).
Lucjan torna-se um líder comunitário dos sobreviventes do bunker, voltando-se para antigos cultos eslavos, em especial o deus Veles, associado ao submundo, às águas, ao gado e à magia. É o adversário do deus Perun.
Lucjan passa então a misturar os conhecimentos científicos que possuía ao culto pagão de Veles.

Veles, o deus com chifres do submundo

Vale notar algumas interessantes simbologias entre os nomes e as mitologias presentes no jogo.
Paraíso Perdido (Paradise Lost) é o nome do livro de John Milton, que conta a queda de Lúcifer após a rebelião nos Céus e a corrupção de Adão e Eva.
Tal corrupção se dá através da Serpente no Éden, a forma que Samael (Satanás) encontra para tentar Eva e Adão. O deus eslavo Veles pode tomar a forma de Serpente Rei (ou dragão) para enfrentar Perun.
Veles possui uma árvore, o Salgueiro, com diversas imagens durante o jogo, sendo também uma árvore aquela do pecado original, no paraíso perdido (Éden).

Perun, ao cavalo, enfrenta Veles em sua forma Serpente Rei

Atmosfera e Interatividade
Um dos grandes feitos de Paradise Lost é seu clima de suspense, com atmosfera pesada.
Embora não seja propriamente um jogo de terror, o título trata de temas bastante pesados, como a tentativa de eugenia nazista, o fim do mundo através da guerra nuclear e o luto (cujos estágios dão nome aos capítulos).

As complexas estruturas do bunker


Os gráficos de PL são impressionantes e fotorrealistas nos objetos e até mesmo nas mãos de Szymon (o mesmo não se dá com o rosto da mãe do garoto, que aparece nos flashbacks).
A riqueza de detalhes nos diferentes cenários, mostrando a área luxuosa habitada pelos alemães contrastando com depósitos de armas e clínicas de experimentos científicos.

Riqueza de cenários e belos gráficos nos cenários

A trilha sonora pincela pequenos pontos de grandiosidade ou áreas mais pessoais, sendo muitas vezes suprimida pelo silêncio atroz da solidão de Szymon e sua respiração; um belo trabalho de som foi feito aqui.

O plot é conhecido através das conversas de Szymon e Ewa, bem como dos diálogos gravados de Lucjan e Dominicka.
Já os textos podem ser lidos diretamente do papel, caso você opte por não ativar o botão para realçá-los.

A estátua do deus Veles: adoração eslava dos sobreviventes

Nem tudo são flores em PL: embora o roteiro seja interessante e prenda a atenção do jogador, cada vez mais curioso por descobrir o segredo do bunker, não se pode dizer o mesmo do gameplay.
grande limitação quanto aos objetos interativos, sendo bastante esparsos por um rico cenário. Afora documentos e alguns itens necessários para progressão, demais objetos interativos podem ser avaliados na mão do garoto, mas não possuem função.

Cartões timbrados para passar por portões, a curiosa tecnologia nazista

A falta de puzzles complexos ou mais desafiadores tende a tornar a experiência mais morna, focando demais no aspecto walking simulator.
A jornada narrada é interessante, mas muito guiada, permitindo pouca interatividade, apesar de uma maior exploração disponível.
opções de escolha tanto nas conversas com Ewa, quanto nas decisões do passado através dos terminais.

O 100% nos troféus (uma vez que o jogo não possui platina) consiste em finalizar os capítulos, achar as duas formas de entrar em uma área do primeiro capítulo e fazer todos os finais (duas escolhas separadas, totalizando dois finais cambiáveis).

RESUMO DA ÓPERA:
Paradise Lost é uma interessante experiência narrativa, com boa e pesada atmosfera e um clima de mistério que mantém o jogador curioso pela revelação final.
Belíssimos gráficos e engenharia de som louvável criam uma poderosa imersão, embora a falta de interatividade seja um contraponto negativo.
Um rico lore finaliza o pacote, sem dar respostas completas para o mistério, ficando a cargo do jogador preencher algumas lacunas mentais.
Apesar de seus pequenos deslizes, um impressionante trabalho do estúdio estreante PolyAmorous e certamente motivo para manter a atenção aos trabalhos futuros da empresa.