review / Tutorial de Manifold Garden

* Esta análise foi feita com o código cedido pela William Chyr Studio (versão PS4)

Distribuidora: William Chyr Studio
Produtora: William Chyr Studio
Plataforma:  PlayStation 4 / Xbox One / Switch / PC / Linux / macOS / Apple Arcade
Mídia: Digital
Ano de Lançamento: 2020 (2019 nos computadores)

Manifolgd Garden é um puzzle em primeira pessoa, utilizando conceitos de gravidade e percepção do impossível, com forte inspiração na obra do artista M. C. Escher.

ESCHER E A RELATIVIDADE

Maurits Cornelis Escher foi um artista gráfico holandês, famoso por suas obras em xilografia, meios-tons e litografia.
Suas obras desafiam conceitos lógicos, abordando construções impossíveis, exploração do infinito e a metamorfoses. Padrões geométricos entrecruzados e a gravidade múltipla permeiam os seus temas.

Escher, o ilusionista gráfico


Relatividade é uma litografia de Escher, impressa pela primeira vez em 1953.
Nela, escadas em diferentes direções podem ser usadas de ambos os lados, desafiando as leis da gravidade.
É possível ver portas e entradas de porões ao fim (ou começo?) das escadas, bem como habitantes andando por áreas abertas e mesmo sentados a mesas em ângulos incomuns.

Relatividade, de M. C. Escher


PENSANDO EM MÚLTIPLAS DIREÇÕES

Os puzzles giram em torno de cores para abrir portas e passagens, através da manipulação da gravidade.
Pequenos cubos com a cor necessária para desbloquear as portas precisam ser encaixados em “bases” ligadas por fios condutores.

No entanto, o cubo correspondente possui a cor necessária apenas em uma determinada direção. Ao mudar a gravidade, a caixa pode tornar-se sem cor, fazendo com que você precise entender como acessar a base com a cor ativa no cubo.

Cubos são a principal ferramenta do jogo, mudando curso de águas, gerando árvores e desbloqueando passagens


Este conceito passa a ser mais complexo quando são introduzidos cubos com duas cores, uma em cada polo e feixes de cores específicas, que podem mudar a cor do cubo ao encostar neles.
Ao passo que avança mais no jogo, o fluxo aquático é introduzido e você pode redirecioná-lo girando o cubo sobre a água para que a mesma atinja engrenagens hidrelétricas ou áreas onde um cubo posto junto à água gera uma árvore com mais cubos de mesma cor, para aumentar o alcance da água ou destravar novas portas.

O cubo negativo altera as cores do mundo


Ao fim de cada área, um cubo “negativo” é desbloqueado e deve ser encaixado em áreas translúcidas escuras para gerar luz e remover a “corrupção do mundo” (representada por nuvens/fumaça negra), gerando um cubo multicolorido com efeito de distorção da luz, sendo este necessário para finalizar o puzzle total de cada área, desbloqueando uma das cores e acessando nova área.

AO INFINITO E ALÉM

Enquanto grande parte do jogo parece vir da Relatividade e outras obras de Escher, também nota-se um leve toque dos Jardins Suspensos da Babilônia*, com grandes construções flutuantes no vazio branco/cinza do Nada.

Uma das interpretações do que seriam Os Jardins Suspensos da Babilônia


* Os Jardins Suspensos da Babilônia são uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo. Embora não haja comprovações arqueológicas da existência dos mesmos e se atribua sua fama às descrições românticas gregas e romanas, Os Jardins teriam sido uma obra do rei neobabilônico Nabucodonosor II, que governo entre 605 e 562 a.C.


Ao pular-se de um destes “Jardins” , caindo em direção ao vazio, é sempre possível aterrissar no próprio “Jardim” inicial, ou continuar caindo indefinidamente e passando sempre pelo mesmo ponto.
Este é um dos aspectos mais complexos e desafiadores para a mente do jogador, bem como a manipulação da gravidade.
Torna-se comum perder-se em direção ao que seria o chão, uma vez que qualquer direção pode ser a certa.

A BELEZA NO ABSTRATO

Manifold Garden possui belos gráficos “geométricos”, que desafiam a mente para serem entendidos e melhor apreciados.
As paisagens infinitas dos “Múltiplos Jardins” (como o nome do jogo sugere) são hipnóticas e misteriosas.
Os longos céus (ou abismos, dependendo da perspectiva) branco-acinzentados e as árvores formadas por cubos coloridos possuem um aspecto reflexivo e ao mesmo tempo “desesperador”.

Paisagens complexas e sensação de infinito


A manipulação da gravidade pode causar confusão e até um certo senso de desequilíbrio nos primeiros minutos de jogo, enquanto o jogador se acostuma à perspectiva em constante mudança de direção.

O mais próximo de uma experiência de LSD sem usar drogas


A trilha sonora é “transcendental/new age”, bastante experimental.
Segue uma faixa para melhor exemplificar:

RESUMO DA ÓPERA:
Manifold Garden é um jogo desafiador em seus puzzles e no entendimento dos cenários (acredite, um dos meus maiores desafios foi descrever o jogo nesta análise).
A beleza completamente abstrata e “alienígena” do jogo causa uma curiosa sensação de paz em meio à confusão cerebral que se segue.

Manipular a gravidade e entender como contornar obstáculos alternando direções é um puzzle cerebral por si só, tornando o jogo único.
A natureza totalmente “agnóstica em sua essência” pode ser interpretada por alguns jogadores como algo vazio em qualidades, mas a natureza minimalista e “limpa de narrativa” certamente não assusta os fãs do gênero.

Manifold é certamente um daqueles jogos que vale ao menos pela experiência, caso você não seja habituado a puzzles.
Embora sua duração seja relativamente curta (dependendo da habilidade ao solucionar os desafios propostos) o jogo consegue se manter instigante durante todo o percurso, sempre apresentando novas mecânicas e variações de puzzles

Uma experiência para ser degustada aos poucos, evitando a embriaguez da psicodelia niilista de sentidos.
O final possui um misto entre fractais e imagens “caleidoscópicas”, um bom teste para epilepsia.

PONTOS POSITIVOS:
– belos gráficos em seu estilo próprio
– desafio diferente e instigante
– duração na medida certa
– sentimento de plenitude
– jogo sem bugs ou glitchs

PONTOS NEGATIVOS:
– o meu cérebro confuso tentando entender o mundo em diferentes direções
– a frustração ao empacar horrivelmente em algo e achar que o desafio não tem solução (mas ele tem, acredite!)