Review / Tutorial de Warsaw

* Esta análise foi feita com o código cedido pela Crunching Koalas (versão PS4)

Distribuidora: Crunching Koalas
Produtora: Pixelated Milk
Plataforma:  PS4 / Xbox One /Switch / PC
Mídia: Digital
Ano de Lançamento: 2020 (2019 no PC)

Warsaw é um  RPG tático por turno 2D roguelike sobre o Levante de Varsóvia, na Polônia, em 1944.  
(a propósito, Warsaw é Varsóvia em inglês, daí o nome do jogo)

Você controla uma série de guerrilheiros poloneses contra o exército alemão nazista durante os 63 dias de Resistência.
Os recursos são escassos, os perigos estão por todos os lugares e os combatentes são frágeis.
Você tem o que é necessário para sobreviver à opressão nazista?

Mas antes, um pouco de contexto histórico:

O Gueto de Varsóvia

Durante a invasão nazista na Polônia, na Segunda Guerra Mundial, o Gueto de Varsóvia foi um local de segregação do povo judeu dentro da capital polonesa.

Em 1940, por ordem do Governador Geral alemão da Polônia, Hanks Frank, foi construído o Gueto no espaço equivalente a 2,4% do território de Varsóvia (então governada pelo oficial nazista Ludwing Fischer), concentrando cerca de 30% da população da capital, todos de origem judaica.
O Gueto foi cercado por muros e lá foi isolada toda a população de origem judaica da capital e de cidades e vilarejos próximos.

A população do Gueto chegou a atingir 380.000 habitantes, os quais recebiam uma ração diária de 184kcal (184 calorias diárias). Como parâmetro de comparação, a quantidade ideal indicada pela Organização Mundial da Saúde é, atualmente, de 2.500kcal (2.500 calorias diárias), sendo que uma parte da população mundial excede o valor recomendado.
Diante de tal dieta e das condições sanitárias e da superpopulação, a Tifo e a fome espalhavam-se rapidamente pelo local.

Deportação do Gueto de Varsóvia para campos de concentração – 1942

Em 22 de Junho de 1942, os habitantes do Gueto passaram a ser enviados massivamente para campos de concentração.
Até 21 de Setembro de 1942, aproximadamente 300.000 foram enviados ao campo de Treblinka, onde seriam mortos nas câmaras de gás.
Ficou claro para o resto dos habitantes do Gueto que os 300.000 deportados não voltariam com vida e, no auge do Holocausto, eles se organizaram, decididos a morrer lutando ao invés de serem executados.

Surgiu assim O Levante do Gueto de Varsóvia (mas calma que este ainda não é o evento do jogo).
Com armas, munição e suprimentos contrabandeados por contatos da resistência polonesa  fora do Gueto.
Foram assim formadas a ZOB, Zydowska Organizacja Bojowa (Organização da Luta Judaica) e a ZZW, Żydowski Związek Wojskowy (União Militar Judaica) e ambas iniciaram a resistência dentro dos muros do Gueto.

Rendição no Gueto de Varsóvia – 1943


Em 18 de Janeiro de 1943, uma primeira vitória sobre os soldados nazistas.
Ok, vou dar uma resumida aqui pulando uma série de escaramuças diretamente para 19 de Abril de 1943 (Domingo de Páscoa Judaica), onde os nazistas tiveram sua vitória definitiva no Gueto.
Por ordem de Heinrich Himmler, o Gueto foi extinto e tornou-se local de execução dos prisioneiros.
Posteriormente, o campo de concentração de KL Warschau seria criado no local.

O Levante de Varsóvia

Conflito onde o Armia Krajowa (Exército Clandestino Polaco) tentou libertar a capital Varsóvia do controle nazista.
O conflito durou 63 dias, embora inicialmente tenha sido planejado para poucos dias, como parte da “Operação Tempestade”, até que o exército soviético chegasse à capital, mas o mesmo foi interrompido.

Mulheres também eram voluntárias na Resistência


O principal intento polonês era ocupar os alemães para ajudar no esforço de guerra contra o Eixo mas, em segundo plano, a necessidade de uma vitória rápida reestabeleceria a soberania polonesa enquanto Estado, impedindo assim Comitê de Liberação Nacional Soviético Polaco (Polski Komitet Wyzwolenia Narodowego) de assumir o controle sobre o país.

Os soviéticos, no entanto, não conseguiram alcançar Varsóvia, o que levantaria suspeitas sobre Joseph Stalin esperar pelo fracasso da revolta para poder invadir a Polônia sem resistência. Fato é que que os soviéticos chegaram quase às margens do rio Vístula, sem avançar mais até o fim da revolta, fato que aumentou ainda mais as desconfianças.

Os números não oficiais estimam cerca de 15 mil mortos entre os membros da resistência e 50 mil civis, contra 16 mil alemães.
Durante o combate aproximadamente 25% dos prédios de toda Varsóvia foram destruídos. Após a rendição da resistência os nazistas avançaram destruindo quarteirão a quarteirão. Isto tudo, somado a mais danos causados por outros combates da Segunda Guerra, em 1945, levou a cerca de 85% da cidade estava completamente destruída.
Por este motivo Varsóvia recebeu o apelido de Phoenix City (Cidade Fênix) em referência ao animal mitológico capaz de renascer das próprias cinzas.

Ao final da Segunda Guerra, cerca de 85% de Varsóvia fora destruída


Durante toda a invasão polonesa pela Alemanha Nazista os soviéticos mostravam-se como uma incógnita quanto às suas intenções.
Eles desempenhariam um papel importante no xadrez político que se desenhava.

Enquanto os poloneses pretendiam se tornar um país capitalista após o término da invasão, Stálin pretendia instalar um regime comunista.
Esta vontade do líder soviético impediu diversas tentativas dos Aliados de ajudar e interferir diretamente no conflito.
Stálin chegou a cortar relações com o governo polonês em 1943, após o massacre de generais poloneses em Katyn por tropas alemãs ter sido revelado.

Em 13 de Julho de 1944 os soviéticos invadiram a antiga fronteira do país e o exército polonês se viu em uma encruzilhada: iniciar a revolta ou não se rebelar e aceitar o rótulo de colaboradores nazistas por parte do regime soviético.
Em 1º de Agosto de 1944 a resistência polonesa travaria uma dura batalha por 63 dias contra as forças nazistas.
É nesse contexto que o jogo se inicia…

As Três Faces da Resistência

O jogo se divide basicamente em três fases: preparação, exploração e combate.

Durante a fase de preparação, na base da resistência, você pode recrutar aliados, vender e comprar armas e consumíveis, reconstruir armas cujas partes foram encontradas em missões, fazer upgrade de personagens (apenas os que são recrutados em missões, explicado mais à frente), deixar personagens feridos em repouso na enfermaria, visitar os mortos no Morgue, escolher os personagens que irão para a próxima missão, gerenciar missões secundárias e pular dias.

Na base, não esqueça dos upgrades de personagem e de deixar os feridos descansarem


Na exploração, você percorre as ruas de Varsóvia, procurando cumprir os objetivos principais, recursos extras e eventos aleatórios, além de entrar em combates (não-listados e essenciais).Para percorrer as ruas, é necessária uma certa quantidade de Pontos de Ação; caso esgote os mesmos, a missão é falhada e você volta para a base tendo perdido o progresso do dia. É possível utilizar itens para reduzir o custo dos pontos de ação, camuflar-se para passar despercebido por sentinelas (evitando combates ou pegando o inimigo de surpresa)  e usando o sinalizador para revelar posições inimigas próximas.

Navegando pelas ruas de Varsóvia, é importante identificar e decidir quais batalhas aceitar e quais evitar

Por fim, o combate se dá pelo sistema de turnos, sendo os quatro personagens dispostos em duas linhas.
A ação acontece turno a turno, um personagem e um inimigo por vez, intercalados.
Além dos diferentes tipos de ataque, é possível usar habilidades de buff e debuff, além de deslocar-se para trás de covers e/ou atingir um melhor posicionamento no campo de batalha.

O combate se dá em duas linhas, barreiras podem ajudar a reduzir o dano ou evitá-lo


Vencer ou Fugir

Um dos pontos mais importantes a se perceber em Warsaw é a fragilidade dos personagens.
A resistência conta com piores equipamentos e menos munição.
Além disto, o jogo conta com permadeath, ou seja: você pode investir um bom tempo dando upgrade nos perks de um personagem e perdê-lo em alguma batalha.
Isso faz com que seja necessário saber quando lutar e quando fugir e também quando deixar um personagem para trás e ser curado até segunda ordem.

Permadeath, eu li PERMADEATH???


Como dito anteriormente, o jogo possui permadeath, o que faz com que cada personagem tenha sua importância, mas podemos dizer que existem “os protagonistas e os coadjuvantes”.
Os personagens protagonistas são os três iniciais do jogo, mais aqueles que forem recrutados automaticamente através de eventos.
Cada um deles possui características especiais, pode receber upgrades de perks (vantagens) através do uso de XP obtido nas batalhas e com medalhas de condecoração (itens que, uma vez consumidos, geram 300XP cada). Podem também ter suas armas trocadas e adquirir habilidades extras.

Habilidades especiais fazem a diferença nos protagonistas


Já os coadjuvantes são personagens recrutados na base com o uso de recursos.
Eles não evoluem e não podem ser modificados, embora seja possível escolher entre três armas e três habilidades no momento do recrutamento.
Coadjuvantes não possuem limite de recrutamento (embora você só possa utilizar quatro personagens em batalha por vez), mas é importante recrutar o máximo possível para o caso de perder alguns durante a campanha.

Guerra de Atrito

Os combates acontecem nas ruas de Varsóvia, com pedras, sacos de areia e latas de lixo como possíveis covers, o que reduz a chance de receber dano, mas também limita a movimentação. Alguns personagens podem construir covers com uma habilidade especial.

A desvantagem numérica e de equipamentos de sua equipe é visível.
Dentre os conflitos, você irá enfrentar uma série de inimigos diferentes: cães, tanques de guerra, soldados com fuzis, metralhadoras, pistolas, lança-chamas, bazucas, entre outros.
Como o combate se dá alternando uma ação do jogador e uma do inimigo, cada movimento precisa ser bem pensado: uma habilidade de cura pode ser útil, mas gasta o turno ao invés de atacar; movimentar-se para uma posição melhor pode ser importante, mas você vai gastar o turno de ataque nesta ação; se você decide atacar num momento crítico e errar o ataque, pode ter perdido a chance de curar um aliado ou mover-se para uma posição melhor.

A frase “Fogo nos racistas!” nunca fez tanto sentido


Ações Mortais

Entre os dias e durante a fase de exploração, alguns eventos acontecem e/ou podem ser encontrados.
Sobreviventes armados e desesperados, revoltosos dentro da resistência, cães raivosos guardando algum local.

Cada um destes eventos possui uma série de desdobramentos: personagens bons de lábia podem convencer alguém a se tornar aliado ou barganhar por mais recursos; brigões podem lutar para impedir uma tragédia maior (ou podem causá-la se falharem na iniciativa).
Tudo é medido com uma porcentagem de acerto dependendo do personagem (bem como nos combates).
O time que você levou para aquele dia determina algumas das ações disponíveis.

Eventos podem mudar o destino do grupo inteiro ou decretar a morte de um personagem: aja com cuidado


Alguns eventos indicam possibilidade de morte iminente no grupo, marcados com uma cruz vermelha.
Esta é sempre uma opção arriscada, uma vez que a falha acarretará morte de um personagem, então tenha cuidado ao escolhê-la.

Arte e Caos

Warsaw possui belíssimos gráficos desenhados, com tons mais “mortos”, focados especialmente no marrom e cinza, com nuances de vermelho.
Os personagens possuem um estilo cartunesco, de contornos grossos e bastante expressivos.
A violência é representada de maneira relativamente leve, apesar do tema, com apenas algumas amostras de sangue dos disparos, sem gore.

O visual é cartoon, mas o tema é sério

A trilha sonora é composta por temas clássicos e épicos, com uma nota bastante triste, representando a situação vivida pela resistência.
Embora não haja “dublagem completa”, os soldados emitem algumas notas de comando ou gritos de dor.
O combate por turnos se dá sem muita animação das cenas, alternando imagens estáticas complementadas por pequenos zooms e chacoalhadas de tela.

RESUMO DA ÓPERA:
Warsaw retrata de maneira ímpar os horrores da guerra, mostrando o desespero de uma resistência com esparsos recursos.
O combate por turnos e a existência do permadeath tornam a experiência agressiva, incrementada pelo fator roguelike que muda as missões e os eventos aleatórios a cada run, bem como os personagens protagonistas disponíveis por jogada (você nunca consegue recrutar todos eles em uma única jogada).
A opção de dificuldade, tanto de combate quanto de recursos e feitos da resistência adiciona uma gama de opções para mais jogadores, não sendo focada APENAS nos fãs hardcore de altas dificuldades.
Visualmente o jogo é um deleite, possuindo também uma bela trilha sonora.
A licença poética acaba por tornar a necessidade de um embasamento histórico mais forte desnecessária, focando o jogo em heróis anônimos da resistência.

PONTOS POSITIVOS:
– parte artística impecável
– dificuldade desafiadora, mas customizável a vários paladares diferentes
– alto fator replay pelos diferentes eventos e personagens

PONTOS NEGATIVOS:
– tiros de 95% de chance sendo errados com uma certa facilidade por personagens de nível baixo (X-COM fazendo escola)
– combate com pouca animação, alternando algumas imagens estáticas

3 comentários

      1. Esse vai ser o detalhe, por que eu to acostumado a ir pra ofensiva com tudo (muito SRW da nisso XD)