Review / Tutorial de The Last Of Us Parte II

Desenvolvedora de Crash Bandicoot e Jak & Dexter, a Naughty Dog havia se destacado no PlayStation 3 pela série Uncharted, que estabelecera um novo patamar de cinematografia, combinando personagens carismáticos e bem escritos com uma trama leve e ação frenética, fortemente inspirada em Tomb Raider e Indiana Jones.

Mas foi em 2013, já no fim da vida do PS3, que o estúdio revolucionaria o mundo dos jogos mais uma vez.The Last Of Us elevou a qualidade da narrativa nos jogos, com personagens marcantes e uma trama sombria. O tom outrora leve do estúdio nos mascotes do PS1 e PS2 e do aventureiro Nathan Drake daria espaço à uma visão pessimista de mundo.

A Epidemia e O Homem Vazio

O Cordyceps é um gênero de fungos que ataca insetos e animais artrópodes.
Uma vez infectado, o hospedeiro é controlado pelo fungo, indo sempre para algum local que propicie o fácil desenvolvimento e a disseminação.
Dentre os tipos, o Ophiocordyceps unilateralis, famoso por transformar formigas em “zumbis”; em seu estágio mais avançado, cria protuberâncias semelhantes a cogumelos na cabeça da formiga hospedeira.

É justamente esta variação do fungo que inspirou o cordyceps de The Last Of Us, mutação que afeta seres humanos e vira uma epidemia que destrói os EUA.
Neste cenário conhecemos Joel, sua filha Sarah e seu irmão Thommy, durante o início da epidemia, evento que desencadeará a morte da filha e a transformação de Joel em um homem cruel.
O jogo se passa vinte e cinco anos após o início da doença, com um protagonista que nunca superou a perda da filha, transformando-se em um niilista amargurado, mas que reaprenderá sobre os seus sentimentos através de Ellie, garota de 12 anos que é imune ao vírus e precisa ser transportada através do país para a sede dos Vagalumes (Fireflies), para o desenvolvimento de uma cura.

Distribuidora: Sony Interactive Entertainment
Produtora: Naughty Dog
Plataforma:  PlayStation 4
Mídia: Física e Digital
Ano de Lançamento: 2020

THE LAST OF US PARTE 2

O jogo começa 5 anos após os eventos do primeiro jogo, Ellie tem agora 19 anos e mora em Jacksonville, comunidade onde ela e Joel encontraram Thommy no primeiro jogo. O local ainda é gerenciado por Maria.

Ellie está no início de um relacionamento com Dina, ex-namorada de Jesse.
O relacionamento entre Ellie e Joel aparenta um certo estremecimento, embora de início não saibamos porque.

Após um evento traumático, Ellie parte em uma jornada de vingança e…
E isso é tudo que posso falar sobre o roteiro do jogo. Sim, isso é muito pouco, eu sei, mas acredite, revelar mais seria estragar a experiência.
O motivo da vingança de Ellie é revelado com pouco mais de duas ou três horas de jogo, dependendo do seu ritmo.
O jogo sofreu com vazamentos de spoilers, mas espero que você tenha escapado deles.

O beijo entre Dina e Ellie foi a primeira de uma série de polêmicas do título

O AMADURECIMENTO ATRAVÉS DA DOR

TLOU2 aborda diversos temas pesados, de maneira bastante direta e crua.
Acredite na classificação etária de 18 anos, ela se faz realmente importante aqui.
Há diversos momentos impactantes durante a trama que pedem não apenas uma certa maturidade, mas também um bom momento mental para serem digeridos.

É claro, falamos aqui de uma obra de ficção, mas afora a infecção, muitas das situações ocorridas são bastante tangíveis e sensíveis.
Enquanto o primeiro jogo tem como base a redenção e o processo de rehumanização de Joel, o segundo trata do ódio de Ellie e do seu amadurecimento frágil, repleto de dor e sofrimento.
O trauma sofrido pela protagonista reabre velhas feridas experienciadas no primeiro jogo.
Em TLOU vimos um Joel já quebrado, em TLOU2 vemos uma Ellie sendo mais quebrada e se tornando, em parte, aquilo que Joel foi durante muitos anos.

A temática violenta garantindo o selo de 18 anos

A ARTE DA PROVOCAÇÃO

É sabido que o papel da arte é provocar. A arte precisa causar sentimentos fortes, seja de deleite ou desespero. A arte provoca reações em quem a consome (e quem é por ela consumido).
O título engloba não somente a vingança de Ellie, mas suas consequências; mostra o que as atitudes do primeiro jogo geraram em outras pessoas e no universo construído.

Por isto, é importante ressaltar que TLOU2 não é uma experiência leve e, acredite, é justamente isto que a Naughty Dog quis criar.
O jogo pede uma certa reflexão por parte do jogador, fazendo perguntas difíceis de responder.
Enquanto o primeiro título nos chocava com a brutalidade das situações ocorridas com Ellie, Joel e outros NPC’s amigos da dupla, o segundo choca com a violência e as consequências de ambos os lados.

Aqui temos uma das novidades: Abby.
Mulher forte (em todos os sentidos), Abby é uma contraparte à Ellie, usando mais a força bruta e menos a agilidade.
Embora novamente os spoilers me impeçam de me aprofundar sobre a personagem, é possível dizer que vemos algumas relações de Abby com diversos outros personagens, seus companheiros de jornada.

Abby era a misteriosa mulher dos trailers

AS NOVAS FACÇÕES

Os Vagalumes do primeiro jogo não estão mais presentes (ao menos não diretamente).
Ao invés deles, temos agora dois novos grupos: a Washington Liberation Force (WFL) e os Serafitas.

A Frente de Liberação de Washington, também chamada de Lobos (trocadilho com Wolf e WLF no original) é um grupo paramilitar que tomou diversos pontos de Seattle.
Semelhantes aos Vagalumes, possuem bastante armamento pesado e são bem organizados, atacando em pequenos esquadrões, a pé ou em veículos.
Utilizam também cães em algumas rondas, sendo este um inimigo mais difícil de despistar devido ao olfato.
Os cães possuem uma relação direta com seu guia, lamentando a morte do mesmo e vice-versa.

Os Serafitas são uma seita religiosa apocalíptica que despreza a tecnologia do passado, acreditando que a infecção foi um evento de revelação, conclamando os escolhidos para purificar os maus (leia-se matar).
Agem em grandes grupos, preferindo o arco e flecha às armas de fogo (embora também às utilizem).
Comunicam-se através de assobios para localização e alarme sobre intrusos. Preparam mais emboscadas que os Lobos, sendo também bastante silenciosos.

Ellie enfrentando uma Serafita

OS INFECTADOS

Os diversos estágios da infecção retornam, acompanhados de novos “rostos”.
Além dos Corredores, Perseguidores, Estaladores e Baiacus, temos agora também o surgimento dos Espreitadores e Trôpegos.

Os Espreitadores, como já diz o nome, possuem comportamento errático, surgindo de cantos e esquinas. Vivem em locais escuros, aproveitando-se do elemento surpresa; são bastante silenciosos e esquivos, atacando em pequenos grupos de três ou quatro.

Os Trôpegos são mutações dos Baiacus, cobertos de pústulas em seus corpos. Embora lentos, são extremamente perigosos por exalarem uma nuvem tóxica de suas chagas, especialmente após a morte.

Trôpego é um dos novos tipos de infectados (mantenha distância!)

A BELEZA MELANCÓLICA

Graficamente, TLOU2 é um deleite visual, com uma arte mais escura e sombria que seu antecessor.
Mesmo no PS4 “vanilla”, o jogo brilha com cenários bastante detalhados, de complexas ruínas urbanas a densas florestas, repletas de vegetação.

As animações faciais dão um show à parte, sendo possível, através do modo Foto, capturar diversas expressões no rosto dos protagonistas. Em nenhum momento personagens (mesmo NPC’s) possuem o olhar vazio, tão comum à maioria dos jogos eletrônicos.

Um destaque fica para a “pornografia de armas”, presente nas estações de trabalho, onde as armas que receberão upgrades são exibidas em destaque, brilhantes e sem serrilhados.

A customização de armas mostra o processo de fabricação de componentes

SOM E TRILHA SONORA

TLOU2 possui um cuidado técnico na parte sonora, melhor aproveitada através de fones com som 3D.
Posições de inimigos, sons de disparos de armas, grunhidos de infectados estão muito bem representados.

Troy Baker (Joel) e Ashley Johnson (Ellie) retornam em seus papéis consagrados, sendo acompanhados de Laura Bailey (Abby), numa dublagem carregada de emoções fortes e belas interpretações.

Já a trilha sonora de Gustavo Santaolalla, tão emblemática no primeiro jogo, retorna, um pouco tímida agora.
Embora cumpra seu papel, as músicas ganham pouco destaque.

DUAS MULHERES, DOIS PONTOS DE VISTA

A jogabilidade, no geral, foi bastante aprimorada em relação ao título de estreia.
O jogo possui um forte direcionamento ao stealth, mais refinado agora. A IA dos inimigos foi melhorada.
Estaladores são mais sensíveis à proximidade, não apenas ao som; Espreitadores podem esquivar ataques corpo a corpo.
Inimigos humanos vasculham mais os locais, inclusive embaixo dos carros, onde é possível esconder-se; também ficam atentos à grama alta, se muito próximos.

O botão de esquiva foi uma grande adição ao combate, permitindo mais dinamismo no ritmo contra múltiplos inimigos (embora continue não sendo recomendada tal opção).

Dentre as armas de fogo, temos pistolas, revólveres, escopetas, rifles, lança-chamas, arco e flecha e besta. Todas as armas de fogo são passíveis de melhorias nas mesas de trabalho, com o uso de peças, representadas pelos parafusos, como no primeiro jogo; os kits de manutenção não são mais necessários.

Já as armas brancas englobam machados, martelos, pés de cabra e canos, dentre outros. Tais armas possuem uma curta vida útil, podendo ser melhoradas através de modificações com o uso de materiais consumíveis.

Ellie porta uma faca como arma base, podendo sempre recorrer à ela quando não possuir armas brancas coletadas; já Abby não possui arma base, recorrendo ao próprio corpo, através de chutes, socos e estrangulamentos.

Falando sobre os materiais consumíveis, eles servem para a criação de vários utensílios, como itens de cura, bombas, silenciadores para pistolas e facas consumíveis (este último apenas para Abby).

As habilidades de cada personagem são aprimoradas em sua própria aba do menu, tendo mais categorias desbloqueadas com a obtenção de manuais de sobrevivência. As habilidades são compradas com suplementos alimentares.

O arco e flecha ainda é vital no stealth, mas os cães mudam a dinâmica

COLETE-ME SE FOR CAPAZ

Existem alguns tipos de coletáveis presentes: além das cartas e recados deixados por outros sobreviventes, notas de diário escritas por Ellie ao longo do jogo, um cardgame e moedas comemorativas dos estados americanos.

Afora as moedas coletadas por Abby, os demais colecionáveis possuem alguma função, seja narrativa (com as opiniões de Ellie sobre acontecimentos da trama), aumento de lore e combinações de cofres* nas cartas e recados dos sobreviventes e uma trama paralela no cardgame, com descrições de heróis e vilões.

Neil Druckmann (diretor do jogo) faz uma pontinha como vilão nas cartas coletáveis

* Embora as combinações de cofres sejam o “jeito certo” de abri-los, é possível decifrar o código prestando atenção ao som dos cliques.

UMA PLATINA PARA TODOS DOMINAR

Diferentemente do antecessor, TLOU2 possui uma platina bastante amigável, não exigindo níveis de dificuldade para zerar.
O foco maior fica por conta dos coletáveis, que podem ser verificados e obtidos via seleção de capítulos, embora seja recomendável deixar para o pós-jogo, por conta do sistema de saves.

Após zerar, um save backup possibilita o New Game +, que será útil para os troféus de upgrade de armas e habilidades das personagens; ao se rejogar um capítulo para os coletáveis, será sempre necessário recorrer ao backup após o capítulo, uma vez que ele reabilitará a seleção com todos os capítulos do jogo.

RESUMO DA ÓPERA:

The Last Of Us é uma obra-prima da Naughty Dog e um belo encerramento para o PlayStation 4 (Ghost of Tsushima, agora o foco está em você!).
A coragem para abordar diversos temas e a crueza da violência pedem uma certa maturidade por parte da audiência, que desagradará uma parte da fanbase, tornando o título mais divisivo em opiniões em relação ao primeiro.

Tecnicamente impecável e narrativamente “um tapa na cara da sociedade”, TLOU2 eleva a barra da qualidade dos AAA’s, ressalta a importância dos jogos narrativos single player e desafia os jogadores com a brutalidade de um pós-apocalíptico cruel como só a humanidade é capaz.

Diversos temas como traumas não superados, sexualidade e aceitação de diferenças são abordados de maneira adulta e trazem uma interessante reflexão sobre a nossa sociedade.
Embora possa desagradar muitas pessoas, TLOU2 merece ser experienciado por todos os jogadores.
Abra sua mente e se deixe engolfar pelas trevas do ser humano.

PONTOS POSITIVOS:
– Gráficos de ponta e arte impressionante
– Narrativa adulta e pesada, com atuações sólidas
– Coragem ao abordar temas psicologicamente pesados
– Boa duração (em torno de 30 horas)
– Cadência melhor em relação ao original (sem partes chatas)

PONTOS NEGATIVOS:
– Trilha sonora com pouco destaque
– Roteiro sem piedade dos NPC’s, com algumas mortes secas e difíceis de superar
– Vazio existencial após ser zerado (como eu vou jogar outra coisa agora?)